29 de dez de 2011

Existe amor em ZL

Ontem, 28 de Dezembro, minha avó, em coma há um mês e nove dias, fez a grande viagem.
Eu estava indo visitá-la no hospital quando soube da notícia. Foi difícil saber de sua morte, velar seu corpo e explicar aos meus sobrinhos o que havia acontecido. Mais difícil ainda enterrar a mulher que compartilhou sua fé comigo e foi, por um longo tempo, minha mãe também... mas me surpreendi com o cuidado e o amor das pessoas que ela cativou.


Dona Maria estava internada no Hospital Municipal da Vila Nhocuné, na Zona Leste de São Paulo, onde uma enfermeira, com mais de 20 anos de profissão, viu seu último suspiro e chorou. Após tantos anos vendo esta mesma cena repetidas vezes, sua humanidade foi preservada e suas emoções à tona, como alguém da família.
E falando em família, um amante à moda antiga foi o meu avô, como disse o pastor que realizou o culto fúnebre. Em sessenta anos de casado sempre levava flores à minha avó e nunca se aborrecia quando ela comprava produtos caros e inúteis da Polishop. Ele atrasou a cerimônia para lembrar ao regente o hino predileto de minha avó:
 "As ondas atendem ao meu mandar:
Sossegai!
Seja o encapelado mar
A ira dos homens, o gênio do mal:
Tais águas não podem a nau tragar,
Que leva o Senhor, rei do céu e mar,
Pois todos ouvem o meu mandar:
Sossegai! Sossegai!
Convosco estou para vos salvar:
Sim, sossegai!
"

20 de dez de 2011

Happy Litha


O Cristianismo é, por essência, uma religião preguiçosa. Seus atos de bondade tem data para acontecer, e estamos no meio de uma delas. Com o pretexto de celebrar o nascimento do Salvador, o Messias, filho de Deus e de uma virgem, considerada por alguns, qualquer mulher, os cristãos arraigaram o machismo, o medo e a culpa numa sociedade conhecedora de outro tipo de trindade: a trindade da mãe.

Habituados ao medo, eles se prostram aos pés de um Deus que nunca conseguem agradar, e então ressumam sentimentos de perdão, de paz, de amor e desprendimento proporcionais aos que necessitam receber deste Deus, na esperança de um ano melhor.
De lá para cá nada mudou muito. Os celtas, os africanos, os índios, os anglicanos, são todos atraídos por essa cultura de anos, batizados nos rios de sangue e abençoados pelas promessas de um carro novo, uma terra nova, um casamento novo, um espelho novo, 'um flit paralisante qualquer'...

Nesta época do ano acabo dando mais presentes que em qualquer outra época. Mas não dá pra fugir do sistema. É só em Dezembro que vem mais tempo de sair pra comprar, e é só em Dezembro que surgem os bonos, as férias, os salários adicionais... E isso não tem nada a ver com espírito natalino. Aliás, eu adoro me boicotar deste tal espírito (zombeteiro, diga-se!). Dentre tantos filmes gravados, baixados, comprados no mercado alternativo ou na Americanas.com, eu escolhi para o final de semana passado "O Nome da Rosa".
Ele não só representa o árduo caminho rumo ao conhecimento, que exige vencer os obstáculos da ignorância e subir os degraus da tolerância, mas a dificuldade de considerar os diferentes saberes numa entidade que se mostrou mais solícita às politicagens humanas que à "vontade divina". 
Quando a principal preocupação de uma entidade religiosa é ocultar conhecimento e manter a hegemonia no poder, matar pode ser apenas um instrumento da vontade divina. Hoje, mata-se a união familiar em detrimento de uma aparição parcial na cantata de natal da Igreja; trucida-se a ingenuidade da infância em troca de valores ultrapassados que só fazem estigmatizar adultos; assassina-se a alegria de estar vivo por uma rotina massacrante, que estimula os bons sentimentos e o descanso do mesmo jeito, for all folks, numa única época em que quem dita as regras, travestidas de vermelho, é o comércio.  
Como lembrou a sábia Dnara Rocco, ao explicar as diferenças dos festivais de Yule e Litha:
"O Natal é em Dezembro, apesar de Jesus ter nascido em Maio, e esta festa não é por causa Dele, mas sim, pelo Deus Cornífero, consorte e filho da Deusa, que no Norte, nasce em Dezembro.
Antigamente, os cristãos eram apenas um punhado, um tempo no qual quase todas as pessoas eram pagãs; ou acreditavam na Mitologia Grega ou na Romana, ou numa das diversas formas de Bruxaria.
Havia também os judeus que eram monoteístas, mas, fora da Galiléia, não eram representativos.
Devido a isto quase todos comemoravam o Natal em Dezembro, mês do nascimento da Criança da Promessa e dedicado a Zeus, ou Jupiter.
Talvez agora vocês estejam sabendo por que o Natal é em Dezembro: para convencer, mais facilmente os antigos pagãos a festejarem o Natal."
A parte boa, para mim, que me traz uma sensação gostosa de nadar contra a maré, é resgatar os primeiros valores destas épocas. Quando coloco a guirlanda na porta, quando mantenho a chama do sol, de fato me lembro da Roda do Ano, e recordo que durante o ano todo eu tentei me conectar ao Grande Espírito e à Grande Mãe com os ritos, com sorrisos e ensinando aos pequenos o que não me foi permitido experimentar.

7 de dez de 2011

6 de dez de 2011

Credo


"(...) Perfeito amor, confiança perfeita
Viva e deixa viver, dá o justo para assim receber
Três vezes o círculo traça e assim o mal afasta
E para firmar bem o encanto, entoa em verso ou em canto
Olhos brandos, toque leve, fala pouco, muito ouve
Pelo horário, a crescente se levanta e a Runa da Bruxa canta
Pelo anti-horário, a minguante vigia e entoa a Runa Sombria
Quando está nova a lua da Mãe, beija duas vezes Suas mãos
Quando a lua ao topo chegar teu coração se deixará levar
Para o poderoso vento norte tranca as portas e boa sorte
Do sul o vento benfazejo, do amor te traz um beijo
Quando vem do oeste o vento, vêm os espíritos sem alento
E quando do leste ele soprar, novidades para comemorar
Nove madeiras no caldeirão, queima com pressa e lentidão
Mas a árvore anciã, venera, se queimares, o mal te espera
Quando a Roda começa a girar é hora do fogo de Beltane queimar
Em Yule, acende tua tora, o Deus de chifres reina agora
A flor, a erva, a fruta boa, é a Deusa que te abençoa
Para onde a água correr, joga uma pedra para tudo ver
Se precisas de algo com razão, à cobiça alheia não dá atenção
E a companhia do tolo, melhor evitar, ou arriscas a ele te igualar
Encontra feliz e feliz despede, um bom momento não se mede
Da Lei Tríplice lembre também, três vezes o mal, três vezes o bem
Quando quer que o mal desponte, usa a estrela azul na fronte
Cultiva no amor a sinceridade para receber igual verdade
Ou um resumo, se assim preferes estar:
faz o que tu queres, sem nenhum mal causar."

1 de dez de 2011

Fórum discute Arte e Cultura do Paraguai


Se você gosta tanto da América Latina mas nunca teve oportunidade de conhecer as histórias e culturas que a enriquecem, ou se você só consegue ver arte paraguaia nas letrinhas embaixo de algum produto de Foz do Iguaçu, esta é a chance:

O Fórum Permanente de Reflexão sobre a Arte da América Latina "O Paraguai que nós vemos", coloca em debate, no próximo sábado (3), aspectos da cultura e da arte do Paraguai, a partir da língua guarani, da preservação dos bens culturais, enfocando aspectos da tradição, das vanguardas e do universo simbólico.  O Fórum apresentara um panorama da produção cultural contemporânea e das artes visuais da República do Paraguai.

A programação completa aqui.

Ricardo Migliorisi


30 de nov de 2011

Ando só

Magritte
Rodeado de móveis, acorda, 'inda com a mirada amorável da senhora do sonho e somatiza na boca do estômago o amargo olhar felino de Salém, preto dos olhos esmeralda, que dorme ao lado de sua cama. 
Ziguezagueando, retira displicente do canto dos olhos as poucas evidências de sua passagem pelo país das fadas. E então, rodeado de luz, choca de água gelada o rosto. 
Esconde a nudez, encosta os lábios nos dela e sai, rodeado de expectativas a atender. No trem, rodeado de possiblidades, salta no mesmo lugar, e lá, rodeado de gente, rodeia-se de fios sonoros que o imunizam dos acasos.
No fim da tarde, passa pela praça favorita de conhecidos, mas continua para seu lugar escondido. De frente para a parede desenhada pela sujeira e laureada por espelhos, vê um olho, um umbigo, um nariz, mas não vê ninguém. 

16 de nov de 2011

Vale das Rosas

Dizem que as rosas são premonições de morte. Comigo não foi tão drástico, mas eu deveria ter-me lembrado desta sabedoria popular para me precaver. 
No sábado deixei tudo ajeitado e limpo. Casa fechada tem de estar limpa! E levei as crias para a sogra cuidar, enquanto eu aproveitaria o único feriado prolongado do ano que consegui planejar uma viagem. A ideia era ficar livre da rotina, descansando a mente sem nenhuma preocupação. Nem carro levei. 
Após uma viagem cansativa, mas cheia de expectativa, cheguei em Poços de Caldas, cidade turística do sul de Minas Gerais, onde foram descobertos poços de águas térmicas e sulfurosas, consideradas curativas no século XIX. 
Esses detalhes que compõem a história da cidade foram justamente a minha rosa. Passei semanas lendo sobre isto e fazendo roteiros, enquanto devia ter usado meu faro para desconfiar do hotel Vale das Rosas, onde me hospedaria. 
Não vi em nenhum site, nem no da Prefeitura de Poços, a recomendação deste hotel. E por ter comprado no Click On, confiei cegamente naquele pequeno espinho que se instalava sorrateiro em minhas mãos. 
Stresses à parte com o centro da cidade, que não tem táxi nem, sequer, um boteco aberto aos domingos, entrei em um ônibus que me levaria ao hotel. Me contentei com um pacote de Torcida de pimenta mexicana até, finalmente, poder traçar um prato da famosa culinária mineira! O cobrador acenou e eu, estranhando o caminho, fechei rapidamente o pacote de salgadinho e fui até ele. "É aqui, moça!", disse rindo. E eu, perplexa com a fachada do lugar, desci do circular Pq. Pinheiros.


Eu estava me sentindo em plena Rodovia Raposo Tavares, só que piorada! Além do hotel, havia um posto de gasolina, quatro motéis e alguns borracheiros! Igonarando o toldo descampado e os pisos quebrados da escada, entrei disposta a permanecer lá, desfrutando da infraestrutura do local e do almoço que estavas prestes a abocanhar.
Nessa piadinha de mal gosto, fui atendida por um senhor que, com o devido respeito aos do ramo, parecia um agente funerário, com um ar lúgubre e um terno preto.
Preenchi tudo rapidamente e logo perguntei se poderia ser servida de um prato de feijão com arroz. "Aqui nóis num serve almoço não!", disse o homem, pronto para me mostrar as instalações.
Ainda com os olhos marejados de fome, entrei no quarto chutando centopeias e formigas e vi uma cama redonda (ui!) sem lençol, uma TV queimada e nenhum frigobar. Não conseguia falar ao homem da minha decepção pois logo desbundei a espirrar, com aquele terrível cheiro de mofo. Sob o efeito da fome e do cansaço, ignorei tudo isso e pedi por obséquio que me dessem uma solução para a fome! Eu já estava comendo o saco do Torcida! "Óia, moça, cê ocê quisé pode buscar umas comida no mercado, pertin, daqui uns 300 metros, ou a sra. pode esperá saí o armoço dos funcionário, que eu te dou um bucadin".
Nesta hora foi-se a fome, o cansaço, as expectativas e só ficou a raiva e uma certa compaixão pela boa vontade do tiozinho.
Chorando de decepção, peguei o circular de volta ao centro, e depois à Rodoviária e finalmente à minha São Paulo.
Bem ou mal, aqui tem Gato que Ri, mas também tem trailer de lanche. O que você puder pagar, tem pra você. E apesar da decepção de concluir que na vida do pobre Deus dá a farinha mas o diabo carrega o saco,
aconcheguei-me à janela do metrô, eu e minha mala, comendo um saboroso pão de queijo paulista.

11 de nov de 2011

"Web of one"

Na rapidez frenética que o mundo disse que a informação deve rolar, rolam as letras, rolam os critérios, roll the bones. E rolam também os conceitos do mecanismo que tornou o mundo inteiro homogêneo, e fez com que a própria ideia de distância, inatingibilidade e curiosidade pelo 'outro', pelo novo, deslizasse para a indiferença e para uma nova categoria de "ocultismo digital".

Este vídeo (que infelizmente não consegui colocar o player) mostra como os filtros da web - especialmente da Google e Facebook - restringem nossa pluralidade, intencionalmente ou não.


"No underground, no mainstream, todo mundo é moderno, todo mundo é eterno, como um relógio antigo" (H. G.)

8 de nov de 2011

Θήτα




Dos verdes pastos bucólicos à selva de pedra
Da mais infame putaria proferida ao pé do ouvido até o agonizante gemido de dor

Meus versos são teus
Todas as minhas virtudes e pecados são teus

Meu amor mais devoto e meu ódio mais arraigado
A engrenagem do meu subsistema e a minha brisa mais louca

São teus
Todas as minhas virtudes e pecados são teus

O beijo que procuro em outros lábios e a minha solidão altista
Das vicissitudes e predileções até minha submissão

Meus versos são teus
Todas as minhas virtudes e pecados são teus

1 de nov de 2011

Under pressure

Gosto de ler sobre assuntos que não domino; sobre os quais nunca me debrucei ou estudei antes. E enquanto perpasso os olhos sobre cada letra, um anagrama vai-se formando em minha mente. É aí que faço meus paralelos.

Hoje li sobre um assunto que exige conhecimento técnico para formação de uma opinião mais assertiva: a construção da usina de Belo Monte. E mal digeri a entrevista da Elaine Brum com o Prof. Célio Bermann, já comecei a me questionar sobre a atuação da PM no campus da USP, na capital.

Foto: G1
Não se sabe, de fato, o que gerou o tumulto na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), mas sabe-se que a Polícia tentou impedir um aluno de usar um carro de som. Ao ouvir deste aluno que só mexeriam em seu carro mediante mandato judicial, a Polícia teria recuado. Momentos depois, três estudantes de Geografia que estavam fumando maconha no campus foram detidos. Este ato, somado à postura truculenta dos policiais, despontou como uma provocação aos alunos, que, indignados, tomaram o prédio da administração da FFLCH e ameaçam permanecer lá até a saída do atual reitor, João Grandino Rodas, e da PM.

Uma outra constatação foi a pixação do prédio da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) após a criação de um grupo no Facebook aprovando a atuação da PM no campus.

Saindo do Facebook, voltei à entrevista sobre Belo Monte, na revista Época; sobre como nos enredam num discurso liberal, repleto de mensagens subliminares - como a própria jornalista propôs no artigo -, vendendo-nos uma bomba em forma de benefício. Na entrevista, Bermann fala de sua experiência como assessor do governo e sobre o superfaturamento da obra, cujo mote não seria em nada energético, mas na área da construção civil.

Foto: AFP
Para dar tempo de processar as informações, olho pela janela e vejo uma pequena área de mata rasteira. Lembrei-me da região paraguaia do Chacco, e então de Itaipu. Nesta ocasião, o Brasil pagou sua parte à vista pelo acordo e ganhou um inquilino até 2022 2023, quando termina a dívida do Paraguai, financiada pelo BNDES. No livro, Ressentimentos de uma Guerra, um professor me relatou que passou toda a sua adolescência no Paraguai à luz de velas.  

E então chegamos, finalmente à Kafka (Oi!?). E me pergunto: será que não estamos nos transformando em algo indefinível por nós mas muito bem monitorado por altos interesses? Não estaríamos brigando por nossos direitos numa luta que já tem fim definido? Não estará nosso grito sufocado pela incapacidade de chegar a um consenso com o outro? E pior: vamos nos conformar a situações a ponto de nem questionarmos mais quem somos e o que queremos ser?


Pode parecer genérico, mas para todos os problemas - até mesmo para o de Gregor Samsa! - eu encontro uma mesma solução: Diálogo. É só por meio dele que as opiniões podem ser ouvidas e as ações enriquecidas. É ele que pode aumentar as expectativas do otimista e minimizar as frustrações do pessimista.

Diálogo!

21 de out de 2011

Ilusão de ótica


"Tire as mãos de mim, me dê a sua mão" (H. G.)


Alvaro Tapia Hidalgo


17 de out de 2011

A ferro e fogo

No mar da modernidade líquida, eles navegam, de pé na proa; rindo dos monstros marinhos, rindo da escuridão. "Seus otários, nós passamos por isso", pensavam, escondendo sob as franjas molhadas seus Ajnas.
Sua comunicação, como nos demais navios, era gerada com interrupções de vento, vicissitudes de água, rigor de madeira. Mas seus olhares traspassavam os ponteiros.
Enquanto a conexão entre os marujos era feita da forma mais rudimentar, entre eles o pensamento eclodia sonoro na mente, mas leve como a brisa da enseada.
"Todos a bordo!, o comandante gritou". Suspenderam a âncora e iniciaram a viagem. Diferente do torpor comum, sentiam calma e um certo cansaço. Cada movimento era, na verdade, uma futilidade para eles. Já fizeram-nos tantas vezes. E lembravam-se.

De todos as palavras, gostos e gestos, apenas a saudade de um abraço que nunca deram apertava-lhes o peito. E então sentiam sua humanidade.
Com dedos firmes faziam seu ofício. Com apreço, reconheciam céu e mar, com todas as suas pessoas, suas complexidades. Mas seguiam, juntos, em mais esta era, pelo nobre caminho... do meio.


 

10 de out de 2011

Vergonha

 Se você é mulher ou um cara muito vaidoso ('carinhosamente' apelidado de metrossexual por esta sociedade substantivada), já deve ter-se visto no terrível dilema de procurar um salão de cabeleireiro. Uma tarefa tão simples, uns diriam, afinal em cada esquina há pelo menos um desses e alguma igreja evangélica. Mas não é só encontrar um salão. E sim "o" salão.
Com este nosso poder de escolha e com tanta variedade de produto, quando achamos um que nos desperte o interesse, geralmente estamos cheios de não-me-toques e com uma lista gigante de veleidades a serem cumpridas sob pena de não voltarmos nunca mais e ainda fazermos a caveira do lugar para as nossas amigas! 
Como disse Sartre: "minha liberdade se angustia de ser o fundamento sem fundamento dos valores".
Mas não é que eu achei o tal do salão perfeito? Que fala junto com você a cor preferida de tintura! Como aquele namorado de adolescência que jurávamos ser nosso grande amor, vem aquela mulher, calejada, experiente, e exprime em tons, cortes e cores os seus pensamentos e desejos mais intrínsecos! Essa mulher tinha mais vivência com estética do que o PSDB com terceirizações!
E como resposta a esta gratidão toda, meu inconsciente me pregou uma bela peça. Comentei o quanto seu cabelo era bonito, longo, e ela, uma negra linda, respondeu em tom de brincadeira: "Não olha muito senão cai".
Foi então que eu soltei a bela merda resposta: "Esquenta não, é inveja branca".

Depois de três ou quatro segundos de um silêncio constrangedor, ela, muito simpática e segura de sua identidade, disse: "Por que, branca é bom e preta é ruim, é?!" e sorriu me abraçando! Ela me abraçou!!!
Que vergonha! Eu mergulhei naqueles braços com os olhos marejados! Lembrei-me de abraçar a minha avó, negra, esposa de um descendente árabe, que já havia sido alvo de tanto preconceito e senti vergonha de mim mesma.
Percebi que nosso inconsciente está comprometido com um imaginário egoísta e racista. O inconsciente do Brasil que, como bem lembraram Silas Nogueira e Dennis de Oliveira no livro "Mídia, Cultura e Violência", vive sob o falso ideal de porto seguro de todas as nações, de destino de paz, mas que resvala na intolerância muda, sutil.
Após o constrangimento, que foi agravado por um belo atendimento, decidi voltar. Voltar àquele lugar que pelo visto tem muito mais a me ensinar do que as tendências para o Verão 2012.  

3 de out de 2011

Someone's Music Echo

Deixou-na ao som de sua música favorita e partiu.



Prendendo a respiração, ela ouviu o som dos passos do salto quadrado da bota e do couro da jaqueta sibilando. Contou os 4 segundos que a porta da casa levava para abrir e ranger, fechando. Suspirou.
Via, da janela, meio de soslaio, à sombra da cortina, quando entrou no carro. Ainda presa a ela, sentiu o corpo vibrar quando ligou o carro, como se estivesse no carona.
E por força do hábito e do vislumbre, tirou os sapatos para esticar os pés sobre o painel. Olhou para baixo e vendo o piso que escolheram juntas noutrora, chorou. Chorou sem poder levantar a cabeça, pesada.
Sentiu no peito a dor se transformando lenta e intensamente em um riso incontrolável, insano! Conforme a música caminhava para o refrão, louca e despindo-se, teve a impressão de uma agulha tatuando em seu peito cada letra.
Achou-se patética pois sempre a criticava por aquela letra pouca, superficial. Mas agora tinha a melodia gravada, como se fosse dela.
Lembrou-se de Wilde, a quem tanto mencionou. Como uma profecia, percebia que não era mais dona de si; que "suas qualidades não eram verdadeiras". Refletiu sobre a imoralidade da influência, e chegou à conclusão de que aquela tatuagem lhe daria coragem de prosseguir.
Com o sabor da vaidade na boca e o suco espesso da vingança a escorrer, decidiu passar adiante este exercício empolgante: ser ela mesma e a outros corromper.

27 de set de 2011

Rock nas Gerais

Saudações seres que, oxalá, visitam o Porão!

Em meio a SWU's, Rock in Rio's e tantos shows grandiosos - e igualmente caros! - chega com muita expectativa o Triumph Of Metal. O festival mineirinho realizará a 5ª edição no mês de Novembro e já definiu seu frontline.

Entre os nomes, as paulistas Attomica e Hellish War (fiquei surpresa com os vocais, afinal as bandas novas de heavy andam tocando bem e cantando mal!), além da mineira Lothlöryen - mais uma banda de um estilo ainda pouco disseminado no Brasil: o folk! (lembrou bastante o Elvenking).   


Bela oportunidade de prestigiar novas boa bandas - e nossas! - por um preço incrível: o lote antecipado custa 20 mangos + 1 kg de alimento não perecível ou 1 brinquedo usado. Mesmo àqueles que deixarem para a última hora, o ingresso custará apenas 30 mangos.

22 de set de 2011

Efígie

Ah que bom seria se, imersos em ilusões múltiplas, os pensamentos tomassem controle do corpo imóvel, sentado sob as folhas, e aliciassem as lembranças a dirigirem a realidade...

Meus olhos se abriram pausadamente. E enquanto os pensamentos se dissipavam da mente, eu os percebia, perplexa, materializarem-se; como se escapassem pela pupila do meu universo paralelo.

Com os olhos completamente abertos senti pontada abrupta no peito. Não podia crer no que via! "A tua imagem em perfeição". E quanto mais eu me esforçava para vê-lo, mais e mais minha consternação tomava forma de lágrimas.
Naquele delicioso desespero, eu me negava a acreditar, e tampouco esfregaria os olhos. Eu lutava contra meus instintos e evitava, até, arrefiar! Eu não perderia a visão, cada vez mais nebulosa, do teu sorriso, da tua gêmea companhia.


Então, com profundo medo da dor de um novo luto, abandonei meu corpo sobre as folhas e cerrando os olhos, vi nítidos seus traços novamente.
Berk Öztürk

16 de set de 2011

The Road Not Taken


Dan McCarthy

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim
Because it was grassy and wanted wear,
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I marked the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

(Robert Lee Frost)

13 de set de 2011

Parte II

Ofélia e todos ao seu redor são aterrorizados pelo Capitão Vidal, mas, a fim de completar sua iniciação, Ofélia terá de emancipar-se desta figura do pai opressor e, principalmente, entrar em contato com seu lado feminino e oprimido mágico. Restabelecer o equilíbrio da dualidade é um passo necessário em transformação alquímica.



O Fauno e seu Labirinto
Desgostosa com sua nova vida, Ofélia é levada por uma fada a um labirinto coberto onde os Faunos saem das sombras. Quando ela perguntou "Quem é você?", Ele responde: "Eu fui chamada de tantos nomes que apenas o vento e as árvores podem pronunciar. Eu sou a montanha, a floresta, a terra... Eu sou um fauno". Ele continua: "Foi a lua que te trouxe. E o seu verdadeiro pai aguarda seu retorno, mas, primeiro, precisamos ter certeza de que você não se tornará mortal".
Na mitologia antiga, faunos, sátiros do deus grego Pan, foram um pouco semelhantes quanto a todos terem os traseiros largos, pernas e chifres de um bode. Pan é um protótipo de energia natural e é, sem dúvida, uma divindade fálica, representando o poder de impregnação do sol. O fauno se torna uma espécie de guia espiritual de Ofélia, ajudando-a através do real e figurativo labirinto que ela deve passar. Apesar do fauno ter a aparência monstruosa, que leva os espectadores a pensarem, de imediato, que ele é o "cara mau", na verdade é o único ser na vida de Ofélia que entende seu desejo de se tornar "mais" e alcançar seu pleno potencial. O "bandido" real do filme não é a criatura horrível, mas o cruel padrasto.


O Labirinto
"Labirintos e labirintos foram favorecidos locais de iniciação entre os muitos cultos antigos. Restos desses labirintos místicos foram encontrados entre os índios americanos, hindus, persas, egípcios e gregos. "
(Manly P. Hall, Ensinamentos Secretos de Todas as Idades)

Encontrado nos ritos de iniciação de muitas civilizações antigas, labirintos eram um símbolo de envolvimentos e ilusões do mundo inferior através dos quais vagueia a alma do homem na sua busca da verdade. O Labirinto do Fauno é mais um figurativo de como Ofélia deve evitar as armadilhas e os becos sem saída do mundo material, a fim de se reencontrar com seu verdadeiro pai.




A Primeira Tarefa: Encontrar o Sagrado Feminino

 
A primeira tarefa dada pelo Fauno a Ofélia é recuperar uma chave de um sapo gigante que está sugando a vida de uma figueira antiga. Ali começa a busca do "retorno ao útero" e reacender o oprimido feminino. O interior da árvore está úmido, simbolizando novamente o útero doador da vida. A árvore em si parece um útero. 
O trauma/fascínio de Ofélia com o princípio feminino se expressa muitas vezes no filme, principalmente através de sua mãe, fraca e grávida, que em última análise tem que dar sua vida para dar à luz. Em uma cena perturbadora, Ofélia vê em seu Livro da Encruzilhada o esboço de um útero que se torna vermelho, prevendo as complicações de sua mãe.

O Homem Pálido
Tendo concluído com êxito a primeira tarefa, Ofélia recebe uma segunda missão do fauno, que é a recuperação de uma adaga do Homem Pálido. Há, porém, uma condição importante: Ela não pode comer nada lá.  

O Homem tem os olhos nas mãos, representando possíveis estigmas.
Só vê o que é palpável.

O Homem Pálido é uma criatura grande, flácida e sentada em frente a uma grande festa. Olhando ao redor, Ofélia vê pilhas de sapatos e representações do Homem Pálido comendo crianças, que, mais uma vez, lembra a descrição de Goya de Cronos. O Homem Pálido é uma representação brutal do poder opressivo do mundo de Ofélia - Capitão Vidal, fascismo espanhol e a Igreja Católica. Para promover essa comparação, uma cena de Vidal jantando com seus convidados, incluindo um sacerdote católico, são mostrados em paralelo, em que ninguém se atreve a questionar os motivos cruéis do Capitão. Ofélia consegue recuperar o punhal, mas na sua saída, não pode resistir à tentação de comer uma suculenta uva grande, simbolizando a riqueza acumulada pelos números de Cronos. Isso desperta o homem pálido, que imediatamente coloca seus globos oculares em suas mãos e começa a perseguir Ofélia.

 
O Último Sacrifício
O fauno ficou furioso com Ofélia por ceder às tentações do mundo material e questionar a sua dignidade para se tornar uma verdadeira imortal. Ele, portanto, a deixa na frieza do mundo real, onde Ofélia tem de ser testemunha da guerra, tormento e tristeza. Logo após a morte da mãe de Ofélia, no entanto, o fauno reaparece, para grande alegria da menina. Ele lhe permite completar o seu início, mas ele exige a sua completa obediência. Para sua tarefa final, o Fauno e Ofélia trazem seu irmão recém-nascido para o labirinto à noite durante a lua cheia, o horário nobre para completar a transformação espiritual no ocultismo. Ofélia deve roubar o bebê de Capitão Vidal, drogando-o, corre para o labirinto, onde o fauno espera por ela. O fauno pede a Ofélia para lhe dar o bebê para que ele possa fincar o punhal e obter uma gota de sangue dele. Ofélia se recusa. O fauno perde a paciência e lembra a ela que ele precisa de sua total obediência, mas ela se recusa. Neste ponto, o Capitão Vidal encontra Ofélia, a quem, no seu ponto de vista, está falando consigo mesma (como ele não pode ver o fauno). Ele leva o bebê dela e atira.
Gotas de sangue da própria Ofélia caem no labirinto, assim, realiza a tarefa final necessária para a sua iniciação: o auto-sacrifício. 
Enquanto vemos Ofélia sangrenta no chão, ela também é mostrada em outra esfera, o mundo inferior, reunindo-se com seus pais verdadeiros. 
O palácio tem toda a forma de uma vesica piscis, um símbolo oculto antigo representando a vulva, a entrada do útero e a porta de entrada para outro mundo. Permanente em três pilares, o pai, a mãe e logo a princesa irão completar a trindade do Submundo. O fauno diz à Ofélia que ela fez bem em ir contra suas ordens e sacrificar sua vida para proteger seu irmão inocente. De fato, uma forte vontade, sacrifício e renascimento são necessários para a realização de uma iniciação nos mistérios ocultos.

Este é um filme de opostos e reversões: realidade versus ficção, bem contra o mal, inocência versus a idade adulta, masculino versus feminino, mundo exterior contra submundo, e etc.. Até mesmo o próprio final pode ser interpretado de duas maneiras opostas: ou Ofélia criou um conto de fadas em sua cabeça para escapar da vida real e, finalmente, cometeu uma forma de suicídio ou ela é simplesmente um ser desperto, que viu o que as massas ligavam ao mundo material em que não podem ver, e finalmente, terminou seu processo de iluminação para se tornar uma verdadeira imortal.
Ofélia é então mostrada novamente deitada no chão com sangue, fazendo com que os espectadores se perguntem: será que isso realmente aconteceu ou é tudo na imaginação da menina?
A história também é uma inversão do paradigma usual para a auto-realização: a transformação de Ofélia acontece nas sombras e no escuro, enquanto a iluminação, como o nome diz, é associada à luz; a iluminação de Ofélia acontece no submundo enquanto transformação espiritual é geralmente associada com "os céus". O iniciador de si mesmo, Pan, é uma divindade conhecida por embriaguez na floresta e de brincar com ninfas, enquanto a iluminação se baseia no domínio de seus impulsos mais baixos; a realização do início de Ofélia exige que ela rasteje na lama, sendo perseguida por um homem pálido e, finalmente, derramando seu sangue, enquanto o caminho habitual para a iluminação é baseado no mestre de virtude própria e não corrompido. Então qual é o verdadeiro destino de Ofélia? Como a última linha do filme: as pistas para a resposta podem ser encontradas por aqueles que têm olhos para ver.

10 de set de 2011

Parte I

Labirinto do Fauno" é um filme profundo que conta a história da busca de uma garota em escapar
da  crueldade do fascismo espanhol.
O filme contém uma grande quantidade de símbolos arquetípicos ocultos e também conta outra história: uma iluminação esotérica através do teste de caráter e do ritual de iniciação. Vamos olhar para o simbolismo oculto e arquetípico encontrado durante todo o filme e sua relação com a busca de Ofélia.

                      
Do The Vigilant Citizen 
Como em muitos contos de fadas, O Labirinto do Fauno é uma história alegórica que pode ser interpretada de várias maneiras e em muitos níveis simultâneos. Enquanto pesquisava para este filme, me deparei com interpretações psicológicas, sociológicas e políticas de O Labirinto do Fauno, mas quase nenhuma relativa ao simbolismo oculto que permeia o trabalho, e eu não encontrei quase nada a respeito de sua história subjacente de iniciação esotérica. Isso veio como uma surpresa, pois Del Toro mesmo descreveu o filme como uma "parábola", e as inúmeras referências ao ocultismo certamente apontam este caminho.

Vamos, portanto, olhar para o simbolismo místico e arquetípico encontrado no filme e ver como eles se encaixam nesta história rica de iniciação esotérica.
Uma das razões pelas quais o filme move profundamente seus telespectadores é, provavelmente, a presença de mitos e símbolos arquetípicos que ressoam profundamente no coletivo e inconsciente pessoal, vejamos:
  
"Na verdade, era uma vez" é um bom lugar para começar com um filme como O Labirinto do Fauno. É um conto de fadas, acima de tudo, especialmente escuro e também contém todos os clássicos arquétipos míticos de Jung do inconsciente coletivo. Pensamos, por exemplo, o rei do mal, a heroína em perigo, universos paralelos, criaturas quiméricas, e a batalha de marcha entre o bem e o mal, como retratado na história. Estes são todos os temas universais, padrões e tipos de personagens que vemos em contos de fadas clássicos, várias e várias vezes; O tipo que levou o analista junguiano Donald Kalsched a afirmar que "Quando os recursos humanos são indisponíveis, recursos arquetípicos se apresentarão". O mesmo pode ser dito da nossa princesa líder, Ofélia. Uma menina despida de humanidade, esmagada pela dura realidade e forçada a recorrer aos mitos arquétipos do imaginário coletivo humano. "
(Psycho-Critical Analysis of “Pan’s Labyrinth”: Myth, Psychology, Perceptual Realism, Eyes & Traumatic Despondency) 


Resumo do filme
O filme se passa nas montanhas da Espanha fascista em um acampamento militar de luta contra os rebeldes. Ofélia, uma menina com imaginação fértil, obcecada com os livros e contos de fadas, viaja com a mãe, grávida e fraca para satisfazer seu novo padrasto, um capitão impiedoso do exército espanhol. Após a sua chegada, ela descobre um labirinto e encontra um fauno que lhe diz que ela é uma princesa do "submundo". Ele promete que ela pode ir até lá e se reencontrar com seu pai, assim que ela completar três tarefas para ele. Em suas tentativas de realizar essas tarefas, Ofélia é obrigada a lidar com a realidade da mortalidade, o absurdo da guerra e do significado do auto-sacrifício.

O conto gira em torno da justaposição de natureza severa e opressiva do mundo real com o mundo mágico e, por vezes, perturbador conto de fadas da menina. O fauno (chamado Pan na tradução do Inglês) é uma besta de chifres que orienta Ofélia através de seu processo de iniciação e mostra-lhe o caminho para afastar o absurdo do mundo material para reintroduzir a glória do plano espiritual, onde vivem os seres iluminados: o Submundo.

Olhos para ver
No início do filme, Ofélia é quase instintivamente levada a um misterioso monumento representando o fauno com um olho faltando. Ela encontra o olho que falta e o coloca de volta em seu suporte. Um inseto mágico de repente aparece: a busca mágica de Ofélia pode começar. Há uma grande importância colocada nos olhos e visão no filme, e essa cena informa os espectadores, desde o início, que a busca de Ofélia está oculta na natureza e que muitos não têm os "olhos que vêem" o mundo invisível que ela está prestes a experimentar.


"Tendo mencionado vista, o filme tem muito a dizer sobre isso. Guillermo Del Toro quase parece pressupor que o espectador precisa de um terceiro olho "zen" para capturar a essência das verdades enterradas nas profundas margens arquetípicas do filme. Como Derrida diz, os significados mais importantes não estão no texto em si, mas "à margem", ou no subtexto. Em outras palavras, os cientistas e os secularistas necessitam deixar o teatro. Quando Ofélia retorna com o olho na estátua ao seu devido lugar, a sua fantástica jornada começa imediatamente. Seus olhos lhe permitem ver as coisas visíveis e invisíveis, reais e irreais, e isso contrasta fortemente com o vilão fascista, o Capitão Vidal, que realiza punções nos olhos dos outros não crê no que não pode ser visto fisicamente."
(Ibid)


A importância do olho é de extrema importância no simbolismo oculto e pode ser datada para o antigo Egito com o mito do olho de Hórus que está sendo restaurado por Toth. Enquanto o olho direito está associado com a percepção de informação concreta e factual (o lado masculino do cérebro), o olho esquerdo de Hórus percebe o místico, espiritual e da intuição (o lado feminino do cérebro). Ao colocar o olho de volta em seu lugar, Ofélia restabelece o equilíbrio necessário para embarcar em sua transformação alquímica.
Ofélia logo percebe, contudo, que os adultos em torno dela certamente não acreditam no que não pode ser visto fisicamente, tornando sua busca muito solitária.

O opressivo pai ditador e o complexo de Cronos

Assim que chega ao acampamento de guerra, Ofélia se encontra com seu novo padrasto, o cruel e sádico Capitão Vidal. O personagem é uma representação do fascismo espanhol e, num nível filosófico, do mundo material opressivo, onde a maioria das pessoas permanece sem questionar quem proíbe a emancipação completa do ser. Este fenômeno é conhecido como “Complexo de Cronos”. Cronos é a figura mitológica grega que representa a morte, tempo e colheita. 

"O Complexo de Cronos não é uma tendência assassina por assim dizer, uma vez que Cronos não só se livrou de sua descendência, mas um processo destrutivo ingestivo, o que dificulta a capacidade da criança de existir separada e autônoma do pai. Ao consumir seu filho, Cronos não visa apenas aniquilá-lo, mas fazer dele parte de si mesmo. Segundo Bolen, desde os tempos antigos, o Complexo de Cronos é uma tendência através da qual as culturas orientadas pelo sexo masculino têm mantido o poder. Isso é evidente em sistemas como o fascismo, uma das mutações mais radicais do patriarcado."
(John W. Crandall, The Cronus Complex)

O simbolismo esotérico de 'O Labirinto do Fauno'


Caros ratos que, oxalá, frequentam a Torre, saudações!

Recebi a versão traduzida de um estudo profundo sobre o simbolismo esotérico presente no filme "O Labirinto do Fauno". Por se tratar de um filme tão rico, decidi dividir este estudo em dois posts.

Enjoy!
 

5 de set de 2011

היי ו 'ז

Guardamos nosso leito ainda com a rainha boiando, redonda e amarela, no céu; batemos o monjolo no pilão diariamente e colhemos nosso pão sob sangue, suor e melodias obstinadas na mente; demos de comer aos nossos e aos filhos de outros ventres.

E vimos nossos irmãos dormirem no campo enquanto debulhávamos o trigo; ouvimos nossos irmãos blasfemarem sobre o arado; sentimos nossos irmãos em outras freqüências.

Choramos por eles, sofremos por nós. Lamentamos por ver retroceder tão belos intentos. Com olhos ensandecidos entrevimos a sabedoria ressumar, gasosa, entre as nuvens.

Então eis que se juntaram a nós os completos. Sem corpos, envolveram-se conosco enobrecendo-nos. Suas mentes, inabaláveis e inacessíveis, descortinaram-se a nós como fenda de luz no céu. Os que foram agora estavam entre nós, e Aquilo que É em nós se fez. Nossas armaduras pousaram e nosso coração seguiu no mesmo ritmo das asas que agora tínhamos.

Mas ainda guardamos nosso leito. Ainda colocamos nossa mão no arado, sem olhar pra trás.