20 de jan de 2012

O coração envenenado de L. Stevaux

L. Stevaux

Diante de um registro fotográfico como este, que evidencia traços lânguidos e femininos desta bela mulher, sequer suspeitamos de seu excêntrico gosto pelo mundo das obscuridades. E se é lá, no submundo, que se encontra a árvore do conhecimento, Lívia Stevaux já está sentada em algum de seus galhos, comendo a maçã. 

Com apenas 26 anos e já somando três contos, sua escrita envolve o fantástico, o brutal e o terror. "Mas no fim das contas os três são sobre amor. Que merda", constata ela, que, como muitos, vê dificuldade em publicar seus escritos.

 
TP: Seu primeiro conto foi publicado em um livro, é isso?
LS: Na verdade eu já publiquei dois contos, os dois em antologias da Andross Editora. O primeiro saiu no livro "Histórias Envenenadas", uma compilação de contos de fada de terror. Nem todo mundo sabe, mas na verdade os contos de fadas nasceram como histórias de terror com fundo moralizante, contadas de geração em geração para ensinar valores morais para as crianças. E havia belas doses de sangue, estupro, canibalismo e mortes hediondas nessas histórias, que estavam longe de ter finais felizes. A proposta da antologia foi resgatar essa origem dos contos de fadas. Alguns autores reescreveram histórias já famosas, outros, como eu, decidiram escrever histórias originais.
Meu conto se chama "O Coração de Adeline". Tentei manter a fórmula básica desse tipo de texto, então como todo bom conto de fadas, o meu tem uma lição de moral. Acho que poderia ser resumida como "cuidado com o que pede, pois certamente lhe será concedido".


TP: E quanto aos outros?
LS: O segundo conto foi publicado na antologia "Tratado Secreto de Magia - Volume 2". O tema dessa vez foi bem mais amplo, pois os contos poderiam ter qualquer tema, desde que houvesse magia envolvida, de alguma forma. Meu conto neste livro é "A Filha da Lua". Era pra ser um nome provisório, mas me acostumei tanto com ele que não consegui mudar. Acabei escrevendo um conto bem fantástico, tendo como inspiração a música "Ocean Gypsy", do Blackmore's Night, uma das minhas bandas favoritas. [do Porão também!] Porém, quando reli o texto meses depois, percebi que há bastante de "Stardust" nele, rs.
Agora já tenho um terceiro conto pronto. Porém, pelo contrato de publicação da editora cada autor deve se comprometer a vender ou comprar uma cota de vinte livros. Isso torna o custo da publicação bem elevado pra quem não vende muitos exemplares no dia do lançamento. Então estou pensando em maneiras alternativas de arrecadar fundos para custear a publicação.  

TP: Qual a temática deles? Há ligação com alguma face da subcultura, ou da cultura underground?
LS: "O Coração de Adeline" é uma história contada em primeira pessoa sobre os horrores vividos pelo protagonista em busca de algo que desejava. Há um clima bem sombrio e insólito, bem próprio dos contos de fada originais, creio eu. Como autora, eu vejo nele uma ligação bem forte com a cultura gótica, uma vez que o estilo da narrativa foi fortemente inspirado pelo estilo de Allan Poe, um dos nomes mais celebrados na área da literatura por essa subcultura. Já "A Filha da Lua" posso dizer que é, basicamente, uma história de amor com muitos elementos fantásticos e um quê de fábula.  Aliás, no fim das contas os três são sobre amor. Que merda.
O conto não publicado ainda não tem título  definido e é bem diferente dos dois primeiros, pois não contém nenhum elemento de fantasia. São sete histórias que se passam através dos tempos, desde o século XVII até os dias de hoje. Não vou falar muito sobre ele pois é um texto curto, vou acabar estragando a surpresa rss. Mas você pode pensar o que pode haver em comum entre a São Paulo dos dias de hoje, um cabaré do século XIX, a pirataria do século XVIII e William Shakespeare! 

TP: Sua formação acadêmica lhe deu os subsídios necessários para entrar neste universo ou você já esteve trilhando esse caminho antes?
LS: Minha história com a escrita e com o curso de Letras é bem curiosa. Eu me lembro de escrever desde que aprendi as primeiras letras. Adorava fazer redação na escola, ao contrário da maioria. Quando eu era criança, uma vez perguntei pra minha mãe que faculdade eu precisava fazer para ser escritora. Na minha cabecinha, existia um curso capaz de te formar um escritor como Ziraldo ou Ruth Rocha (meus favoritos na infância) rs. Quando minha mãe falou que isso não existia, mas que eu poderia fazer Letras, decidi que seria isso que eu faria. Claro que durante o percurso mudei inúmeras vezes de opção de curso, cheguei a passar em Negócios da Moda, mas não teve jeito. No fim acabei escolhendo Letras mesmo. Acho que o curso me ajudou a me aprimorar nesse universo da escrita. As aulas de literatura infantil do professor Alexandre Blaitt, da Universidade de Sorocaba, me deram a base necessária para escrever "O Coração de Adeline". Mas de certa forma, acho que a universidade só te mostra o caminho, cabe a você escolher trilhá-lo da melhor maneira possível. 


Você pode encontrar os livros para os quais Lívia contribuiu aqui. Ela está "pensando em maneiras alternativas de arrecadar fundos para custear a publicação" e disposta a desmitificar alguma historinha pra boi dormir...
   

18 de jan de 2012

White Floyd

From the album Substance, New Order
Eu já vi esta sensação, viscosa, nula, ausente de meios, antes. Mas antes ela era inteira branca, vazia, posto que era a primeira. Agora é branca opaca, alaranjada, e piso neste ciclo, vibro nesta frequência mais uma vez.
Agora, como em alpha, vejo meu corpo da ponta, da ponta do meu nariz. E encosto os dedos nos "bicos" dos meus seios como se fosse de outra raiz.
Não excito, mas ligo por não mais ter nas mãos as claves das outras sinfonias. Os acidentes, as correntes; o andamento, o tempo e o tom das culturas, daquelas partituras.

                               "Só vejo obscuro, objeto, desejo indireto" 

Só sinto por ser tijolo nesta grande obra e ser destinada à sorte do ajudante. Na hora, que formato darei?
Mas nutro secretamente a pretensa esperança de poder, 'inda consciente, pisar nas próximas fases deste ciclo e gozar de seus regozijos, vícios, com um nariz maior.