15 de nov de 2015

I'll be what I am

Passando o tempo, foi possível perceber o quanto me perdi.
Enquanto faziam jogos sujos pelas minhas costas.
Eu me sentia cada vez mais assustado com o tamanho desta sombra ao meu lado.
Lembro-me de enxergar assim, tão distante de mim.
Hoje acordo na certeza sem fim que estavam contra mim.
Eu serei o que sou, com meus erros e acertos. Pois eu me importo pra mim.

Será mais fácil enxergar assim, nada mais será contra mim.
Foi difícil encontrar uma razão, noites de jogos e escuridão.
Quando olhei para céu, não encontrei nada; 
estava sem brilho, tamanha imensidão.
Acredite... Queira você, sim ou não:
Não havia estrelas no céu, me tornava invisível na multidão.

De tanto tomar Gyn, me deitei no chão e fiquei nessa escuridão.
Mas agora nada será contra mim, me sentia assim.
Não havia guardas, muralhas e escorpiões.
Os portões dos porões não se fechavam, nada mais era contra mim,
quando cruzei a fronteira da razão enlouquecido da inquietação.

Levantei-me do chão, não haverá escuridão, nada queria enxergar.
Poderia assim encontrar uma razão.
Eu serei o que sou até o amanhecer.
Vou voltar a ver o que quer que seja... eu não procurei, nem fui encontrar.
Sou a sombra da luz que vem brilhar.
O botão da bomba fatal, fiz deste inferno meu quintal.
Vivo na dor de quem nunca sentiu, no espaço de alguém que nunca ocupou.
Sei que serei assim, o que sempre quis: uma sombra na escuridão, invisível à multidão.

(Lobo, 2015)


*Este poema foi escrito por um leitor do blog Torre no Porão. Lobo é um pseudônimo.

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17 de ago de 2015

σοφία ‎

Recosto você em meus braços e o sono rapidamente me transporta do teu lado. Não tenho tempo de experimentar a sensação de culpa, quando encaro com surpresa meu antigo quarto. Vejo sua pele se amalgamar à minha. Caminho segura naqueles conhecidos passos, mas experimentando um estranho ineditismo. Na verdade, reconheço com clareza aguda sua velha presença: no pôster atrás da porta, na vista do Banespa pela janela, no som metálico dos trilhos do trem. 
Você era o batom vermelho do sábado e as polainas de lã do domingo. Na apreensão do carona da moto, na mala feita. Você era o cinema da quarta-feira. Estava lá, no portão fechando, no borrão das árvores na estrada. Você era a lágrima de saudades da minha vó. A parede de tijolo, o cômodo vazio e o fio de luz do sol que insistia em assistir nosso sono. Você era o amor feito de madrugada e cada laranja cortada pro Heitor. 
Aos poucos você se tornou o conjunto de estrias na minha barriga, a dor nos seios e uma alegria imediata quando se mexia. Você foi aquele medo de perder o que eu sequer tinha, e as inúmeras leituras no metrô enquanto eu encenava que tudo corria bem. Você é aquele grito que irrompe de madrugada e a cada dia que passa você se descola de mim pra ser esse amanhã desconhecido. 
Eu só sei que você tem esse sorriso que dissipa o meu cansaço. Não tem nada que eu te diria, a não ser que eu adoro seu nome. 

27 de mai de 2015

Trama

Todas as páginas têm seu cheiro, e para todas as letras a tua miopia.
Em cada esquina o teu número, e em todos os prédios aquela cor predomina.
No mantra o teu nome, e na palma da minha mão tua guia.

Não leio mais, não conto mais, não rezo mais.


25 de mar de 2015

Das Nachtleben

O encontro

É uma noite escura e o vento uiva distante
Ao longe, no fim da rua, ele vê uma silhueta feminina
Algo inexplicável, como uma curiosidade absurda, o faz se aproximar
Feito destino, eventualmente eles deveriam se encontrar

Ele finalmente se aproxima e a vê: alva como neve, cabelos negros como petróleo
Repentinamente ela o encara. Um olhar frio, sem expressão
A sensação que ele tem é de que ela lê sua alma
E realmente ela o faz, e aquilo tudo é amedrontador

Apesar do horror, ele não consegue se mover 
Tudo o que pode fazer é manter o olhar fixo no fino rosto dela
Quase que como sob encanto, ele dá um passo em direção a ela

O abraço

Suas mãos tocam as costas pálidas e frias dela por baixo da blusa
Ela esboça um sorriso e o aperta com braços desproporcionalmente fortes
Ele sente como se suas costas fossem partir ao meio
O suor frio lhe percorre o corpo
Seu coração dispara quando ela aproxima seu rosto do dele

O beijo

Ela agora definitivamente sorri
Os lábios vermelhos contrastando com os dentes brancos
Ele não espera quando seus lábios são tocados pelos dela
Como uma presa indefesa, ele só responde aos estímulos da predadora

Os lábios frios dela lhe causam pavor
E ainda assim ele não pode resistir
O beijo cessa, ela deita levemente o pescoço dele para o lado esquerdo
E o sorriso dela se torna malicioso...

A não-morte

Há algo a mais no sorriso dela desta vez
Enormes caninos surgiram de lugar nenhum
Ele está desesperado, pois já sabe o que vem depois
Uma só mordida! Um longo e doloroso grito agoniante e uma dor lancinante

Ele sente todo seu sangue se esvaindo
A visão fica turva, embaralhada
De repente, tudo escurece
A morte havia chegado?

A fome

(Corvus, 2015)

*Este poema foi escrito por um leitor do blog Torre no PorãoCorvus é um pseudônimo.
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11 de fev de 2015

Menstruação, amamentação e poder

É muito fácil ceder às pressões tácitas de uma ingênua conversa feminina sobre mulheres. Logo você se vê reduzindo menstruação a TPM, amamentação à flacidez dos seios e todo o poder da sexualidade materna a um sem fim de reclamações, porque não quer parecer a louca do metrô com o dedo em riste pregando a libertação do sagrado feminino.



Mas essas conversas são tão importantes quanto um olhar menos hostil e mais franco e frequente sobre o próprio corpo. "O corpo, esse real que não passa pelo simbólico e que, portanto, acaba escapando até do simbólico das novas tecnologias, tornou-se o único lugar onde ainda se pode articular alguma coisa, inclusive uma ética (...) é como se o corpo tivesse virado o último reduto e a resistência.” (Atrator Estranho - Tempo Real, Espaço Virtual, p. 32)



Esse exercício tá extremamente ligado à intimidade que se pode desenvolver com os filhos - pra quem é mãe - e com o eu - pra quem não é [apesar que toda mulher é mãe, mesmo aquelas que não tiveram filhos]. 

Além disso, esse exercício de empoderamento da mulher sobre o que lhe pertence - seu corpo - também é muito didático para quem está ao redor. Lembro-me de amamentar minha filha em seus primeiros meses de vida e meu filho de coração e criação dizer "Tá, levanta o sutiã, tá aparecendo seu peito". Depois de ver a cena repetidas vezes e de conversas inúmeras, ele entende que aquele momento, apesar de íntimo e belo, é normal. Qual a relação dessa vivência com a postura que ele terá, ao longo de sua vida, com as mulheres à sua volta? Espero e acredito que a melhor, mais respeitosa e gentil possível.


9 de fev de 2015

A Dream of Avalon

And then the Sun went down, Only a campfire heat me now, From behind the trees I hear A melody as sad as a tear.
Where an old Oak has been wrecked,
And the moon's face is reflected
In the great water mirror,
My vision became clearer.
A young lady dressed in white
with her heart shining bright,
Came out from the dark forest's depth
And in the cold I could see her breath.
She took me by the hand,
In that moment I was damned,
I remembered her from other lives
And my spirit was lifted to the heights.

Then her lips touched mine,
a burning flame has raised to shine,
under the stars and zodiacal signs
she walked away from my very sight.
As suddenly as she came, she went away.
left me with my heart doomed to decay.
disappeared in the dark winter night,
To nevermore come out to the light.
Ancient secrets lay unrevealed
Protected by the blinding mists,
The forgotten island still persists
Throughout the aeons forever sealed.
In this island I remain,
Forever alone in the rain
With nothing but my memories,
The mists and the lake.

(From Uther to Igraine, 2014)
*Este poema foi escrito por um leitor do blog Torre no PorãoUther é um pseudônimo.
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2 de fev de 2015

My favorite headache

The Myth Of Perfect Reason
We've Forgotten At Birth
It's A Kind Of Clandestine Conspiracy
A Seraphin Joke Of Eternity



Apesar de ser um álbum de 2000 e apesar de ser uma produção do meu maior ídolo compositor e instrumentista do rock progressivo, confesso: eu não conhecia. 

O que me fascina em cada um dos integrantes do Rush, em especial no G.L., é como a banda soma mas não anula suas individualidades. Como disse o Marcelo Nova em um momento apaixonado "eu que sempre vivi encerrado em mim nunca imaginei que mudasse assim, e nada se perdeu".

Ouvindo o "My favorite headache", não senti que Lee tivesse nele uma pretensa liberdade de realizar experiências que o Rush não pudesse proporcionar ou conter. Mas, como disse o produtor do álbum e amigo de Lee, Ben Mink, "ele realmente inventou sua própria técnica"; um método que o obriga a transcender os meios disponíveis de desenvolvimento da própria técnica. É algo crescente e incontrolável.

The caravan thunders onward
To the distant dream of the city
The caravan carries me onward
On my way at last
On my way at last
I can't stop thinking big
I can't stop thinking big

O mesmo acontece com as composições. Lembro-me de ter tido meu primeiro contato com uma letra impactante do Rush e de como ela me deu a sensação de estar em sintonia com uma sabedoria que, a partir daquele momento, não era mais de fora, mas algo inerente. Talvez Lee escreva sobre essa ubiquidade com tanta segurança por se sentir assim em relação ao grupo, mesmo quando está trabalhando em seu álbum solo; e Peart, mesmo escrevendo sobre seu acidente e sobre como as viagens de moto lhe renovaram o sentido de viver; e Lifeson, em alguns de seus inúmeros projetos paralelos.

"Quando você ouve letras como essa, que são tão sérias e sinceras, falando da honestidade na arte, fazendo perguntas intelectuais mais difíceis e com uma incrível música ao fundo, eles ofereceram algo que faltava no rock." (Jack Black, em Beyond the Lighted Stage).     


20 de jan de 2015

Doce Agonia



Quero ficar do seu lado querendo ser você, 

nessa eterna e doce agonia de te ter e não te ter aqui dentro de mim....




16 de jan de 2015

Entre-nuvens



Cai levemente a Chuva, sem pressa de acabar
Beija apaixonadamente dois corpos quentes e desesperados
Deitados no frescor da grama molhada sob o luar

Simples e plenos, como estas rimas de um amor inventado
Dois corações palpitantes que só desejam a eternidade de um momento,
O abraço apertado e a cabeça recostada nos seios

Entre-nuvens a Lua sorri, observando com olhos atentos
Do alto de sua solidão a Lua também tem seus desejos
Inveja os dois corpos abraçados, sem pensar nem agir

Somente esperançosos por outros momentos na Chuva, sob sua luz
E deseja que vivam sem medos e que o Futuro lhes venha também a sorrir
Para que a vida faça sentido, e seus corpos continuem a se amar

(Roran, 2014)

*Este poema foi escrito por um leitor do blog Torre no Porão. Roran é um pseudônimo.
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13 de jan de 2015

Beltane

A sabedoria dos ritos ancestrais
Com os povos antigos perdida,
Os portadores da palavra esquecida,
©2012-2015 efercussie
O poder de evocar os elementais.


Entraremos no círculo sagrado,
Fecundaremos a Terra com a nossa semente,
Desejo e devoção somente;
O suor e o amor  ardente
De nossos corpos entrelaçados.


Teu elixir puro terei sorvido,
Teu ventre quente terei logrado
E a meu espírito alquebrado
Novo ânimo será concedido.


Seremos como a Deusa e seu Consorte,
Banhados de bençãos pela Lua.
Tão clara quanto a tua carne nua,
Associados no dever até a morte.


Que o sangue do velho gamo se derrame
Que um novo rei se proclame
Para guiar a Bretanha doravante
Iluminado pelas fogueiras de Beltane.


(Igraine, 2014)

*Ester poema foi escrito por uma leitora do blog Torre no Porão. Igraine é seu pseudônimo. Se você também deseja publicar - aberta ou 'secretamente' - envie seu texto para tabs.bolachas@gmail.com.

8 de jan de 2015

Resiliente

"Nós somos ásperos por força do hábito
Trazemos o sangue muito quente
Vivemos de migalhas, promessas e batalhas
Estamos rindo de nervosos
Cobertos de feridas num beco sem saída
No entanto o coração palpita
Estamos lúcidos, atentos com fôlego
Armados de fé até os dentes
Truques, acrobacias, palhaços e magias
Estamos vivos de teimosos
Circo de marionetes, chuva de canivetes
No entanto o coração se agita"
 
(Almôndegas, 1978) 

Mãos grossas de vassoura, unhas roídas de tensão; pelos mal aparados, eu mesma me faço: não tenho tempo não. Um olhar medonho, meio medo, meio torto, meio estrábico, meio insano. 

O cabelo meio liso, meio rubro, meio cacho. Mais pra baixo, bem pontudo, meu joelho, eu odeio, fica oculto pela saia, meio larga. 

A postura é meio curva, pela vista, ainda turva, dos meus países arrebalados que insisto em carregar, tão pesados, aqui fora. É só isso, por ora.  


3 de jan de 2015

Vozes das Profundezas


Se pudessem os céus transbordar
E do firmamento jorrar estrelas,
Se pudessem os mares evaporar
E de suas profundezas extremas


Surgissem vozes dispersas no vento
Nos dizendo em silêncio que direção seguir
Por rotas ignoradas pelo conhecimento
E que guardam os profundos segredos do porvir


Ouviríamos apenas o canto dos pássaros
Esperando que sua triste melodia
Pudesse vencer as barreiras da agonia
E romper as correntes do torpor...


E quando esse dia chegar
Esses dois pássaros que somos
Poderemos decifrar os sonhos

E um ao outro dedicar o nosso amor...

(Pendragon, 2008)

*Este poema foi escrito por um leitor do blog Torre no Porão. Pendragon é um pseudônimo.

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