29 de jan de 2013

Levinas

Imagem: Rogério Bessa

"Deus que vela sua face não é, pensamos, uma abstração de teólogo nem uma imagem de poeta. É a hora em que o indivíduo justo não encontra nenhum recurso exterior, em que nenhuma instituição o protege, em que a consolação da presença divina no sentimento religioso infantil se nega também, em que o indivíduo apenas pode triunfar em sua consciência, ou seja, necessariamente no sofrimento. A posição de vítimas em um mundo em desordem, ou seja, em um mundo onde o bem não chega a triunfar, é sofrimento. Ele [o sofrimento] revela um Deus que, renunciando a toda manifestação solícita, convoca à plena maturidade do homem responsável integralmente. Mas no mesmo instante, este Deus que vela sua face e abandona o justo à sua justiça sem triunfo — este Deus longínquo — vem do interior."

2 de jan de 2013

Out of me

Não é que eu encontre sentido escrevendo ou caminhando. Percebo-os – ambos os exercícios – paralelos, mas não rivais. Se um me leva ao mar e o outro a montanhas, não importa... mas sim o mesmo céu que os cobre, ignorado; o mesmo asfalto que absorve seus atropelados.
Acaricio estas teclas do mesmo modo a delibar a outra pele: sem expectativas e com olhos bem abertos à menor fenda de deleite momentâneo.
Não procuro mais me reafirmar em quartos conjugados ou paredes solitárias; nem em escovas de dente de cores opostas entrelaçadas, nem em pôsteres juvenis cheirando individualismo de guarda-roupas.
A verdade é que não há opostos, não há caminhos; não há céu, asfalto, nem destino. Se tenho mais um caractere aqui ou mais um passo lá, ao final nada freia o tempo. 
Vejo mais um pequeno risco púrpura sob minhas coxas; mais um desvio côncavo me acompanha as curvas. Elas, então, disformes, deformam-me e me transformam no que querem. Num não-eu que desvendo cotidianamente, tornando mais pueril os pequenos núcleos sensoriais, rodeados por marcas maliciosas de expressão.
E quanto mais busco descrevê-los, mais distante percebo-me deles: não estou em meu olhos, em meus dedos, em minha língua, em meus cabelos. 
Estou fora de mim. E é lá onde me encontro.