16 de nov de 2011

Vale das Rosas

Dizem que as rosas são premonições de morte. Comigo não foi tão drástico, mas eu deveria ter-me lembrado desta sabedoria popular para me precaver. 
No sábado deixei tudo ajeitado e limpo. Casa fechada tem de estar limpa! E levei as crias para a sogra cuidar, enquanto eu aproveitaria o único feriado prolongado do ano que consegui planejar uma viagem. A ideia era ficar livre da rotina, descansando a mente sem nenhuma preocupação. Nem carro levei. 
Após uma viagem cansativa, mas cheia de expectativa, cheguei em Poços de Caldas, cidade turística do sul de Minas Gerais, onde foram descobertos poços de águas térmicas e sulfurosas, consideradas curativas no século XIX. 
Esses detalhes que compõem a história da cidade foram justamente a minha rosa. Passei semanas lendo sobre isto e fazendo roteiros, enquanto devia ter usado meu faro para desconfiar do hotel Vale das Rosas, onde me hospedaria. 
Não vi em nenhum site, nem no da Prefeitura de Poços, a recomendação deste hotel. E por ter comprado no Click On, confiei cegamente naquele pequeno espinho que se instalava sorrateiro em minhas mãos. 
Stresses à parte com o centro da cidade, que não tem táxi nem, sequer, um boteco aberto aos domingos, entrei em um ônibus que me levaria ao hotel. Me contentei com um pacote de Torcida de pimenta mexicana até, finalmente, poder traçar um prato da famosa culinária mineira! O cobrador acenou e eu, estranhando o caminho, fechei rapidamente o pacote de salgadinho e fui até ele. "É aqui, moça!", disse rindo. E eu, perplexa com a fachada do lugar, desci do circular Pq. Pinheiros.


Eu estava me sentindo em plena Rodovia Raposo Tavares, só que piorada! Além do hotel, havia um posto de gasolina, quatro motéis e alguns borracheiros! Igonarando o toldo descampado e os pisos quebrados da escada, entrei disposta a permanecer lá, desfrutando da infraestrutura do local e do almoço que estavas prestes a abocanhar.
Nessa piadinha de mal gosto, fui atendida por um senhor que, com o devido respeito aos do ramo, parecia um agente funerário, com um ar lúgubre e um terno preto.
Preenchi tudo rapidamente e logo perguntei se poderia ser servida de um prato de feijão com arroz. "Aqui nóis num serve almoço não!", disse o homem, pronto para me mostrar as instalações.
Ainda com os olhos marejados de fome, entrei no quarto chutando centopeias e formigas e vi uma cama redonda (ui!) sem lençol, uma TV queimada e nenhum frigobar. Não conseguia falar ao homem da minha decepção pois logo desbundei a espirrar, com aquele terrível cheiro de mofo. Sob o efeito da fome e do cansaço, ignorei tudo isso e pedi por obséquio que me dessem uma solução para a fome! Eu já estava comendo o saco do Torcida! "Óia, moça, cê ocê quisé pode buscar umas comida no mercado, pertin, daqui uns 300 metros, ou a sra. pode esperá saí o armoço dos funcionário, que eu te dou um bucadin".
Nesta hora foi-se a fome, o cansaço, as expectativas e só ficou a raiva e uma certa compaixão pela boa vontade do tiozinho.
Chorando de decepção, peguei o circular de volta ao centro, e depois à Rodoviária e finalmente à minha São Paulo.
Bem ou mal, aqui tem Gato que Ri, mas também tem trailer de lanche. O que você puder pagar, tem pra você. E apesar da decepção de concluir que na vida do pobre Deus dá a farinha mas o diabo carrega o saco,
aconcheguei-me à janela do metrô, eu e minha mala, comendo um saboroso pão de queijo paulista.

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