29 de dez de 2012

Bovarismo pós fílmico

Desperta-me, lua tríplice, e acordarei saudando com o sangue do lábio inferior

Os meus versos são gratuitos, são paupérrimos
São como eu, pedintes e dispersos
De qualquer gratidão
São cheios de ingênua afeição
E estão fartos da procura obstinada, procrastinada, mecanizada 

Ah! Escuridão!
Que já amiga se faz
E com o tato não te procuro mais
Porque te vejo no profundo dos olhos

"Chuva de Containers, Entertainers Noir"

Só me dôo por amor próprio,
Para alimentar uma volúpia e um ego inflamados
De desejos mimados
Eu me entrego para usurpar alheios modos

Pois eu quero o gosto do amargo
Eu quero o sabor da sabedoria gasosa
Eu quero os elementos brutos da vaidade
E da personalidade
Que não se corrompeu com o véu sutil das horas


26 de nov de 2012

Sinal da Paranoia

Caminhando como quem caminha com os olhos nos pés,
vendo bitucas e cigarros inteiros; vendo um mato rasteiro.
"Do cimento das coisas armadas" camisas de vênus espalhadas.

Um caco, um bilhete rascunhado;
uma nota, um beijo roubado.
Um turbilhão de melodias, semi-fusas;
às portas da percepção, me introduza.

Amalgamando os fragmentos, sou cidadão interplanetário
e quero fazer um amor três por quatro.

Calada no riff, no refrão, no compasso, não é preciso ver pra crer:
"De mim pra você".  




13 de nov de 2012

9 de nov de 2012

Rússia, Síria e China

Essa postagem da Nyelschi, companheira de longa data e de muitas vicissitudes e separações físicas e emocionais - que hoje fazem-me sentir mais próxima ainda -, é antiga. Talvez de um outro momento de sua vida. Mas como sempre, e não só pela diferença de idade, ela está à frente. Mas eu me identifico, em parte, e com alguns de seus alfarrábios. E, mais do que nunca, admiro sua capacidade de tradução das coisas da vida em prosa:

"Descobri uma coisa, ao longo de tantos anos, internos e externos, não há fundo do poço. Acho que nem ha um maldito poço. Eh sempre algo mais la no fundo..  tem sempre algo mais ali que aparece, de vez em quando. E aparece e te da um olá, como é que vai? Só passei pra lembrar que estou aqui, seu velho amigo, não pense que deixarei vc.

Vc pode pô-lo pra dormir, mas pra que se enganar?  Tem escritores e musicos e pessoas em geral que estao mais certas do que imaginam. Mas isso até eu. A gente sabe onde as coisas estão, se elas existem e o que elas são?
Não é tão simples quanto vc acha que é. Não é tão obvio quando vc acha que esta sendo, não é aquilo de novo.


É aquilo de sempre, o que sempre esteve. Não se preocupe.
Talvez seja assim.. até os raios de sol que passam entre as árvores sabem disso. Mas eu não culpo a ninguém. Nem eu sei ainda."


Nyelschi é minha prima parte árabe, parte russa e agora carioca. Esse é o Brazyl! Ela já foi inspiração aqui na Torre e mais uma vez me remete a outra conexão audio-visual.

29 de out de 2012

Sesquialtera

Gobugi

Quando aspiro à insanidade, rota de fuga,
com teus olhos me juras;
E num leve sopro, a bafejar a realidade,
despenco nas horas eternas do seu corpo.
Cubro-me com um lençól de estrelas e adormeço:
o vento gélido nos acolhe.

--
Sinto-me Cinderela com as badaladas da noite e meia;
Desperto e levo braços e pernas aos tropeços.
Levo olhos, mas não olhares;
Levo os dedos; dualidade.
Nos meus lábios, embebem-se os beijos
para despontarem lacônicos sofismas. 

 --
  

   

 Agora estou no alto da torre. Minha mente roçaga graciosa sobre a grama rasteira.
Bem perto do chão, bem perto dos passos que me levam para longe da minha vaidade, das minhas verdades; para longe da minha construção, do meu aguilhão.
Enteso-me, buscando despedaçar-me. E já estou em pedaços. 


Neste sonho nebuloso, mas ainda viva, sofro a efeméride de uma pintura surrealista na parede da sala, esquadrinhada por suas lentes precisas;
Neste sonho perigoso, mas aqui, ainda, medro as agruras de um inferno terráqueo acusando-me de todos os pecados que cometi concisa. 


Um temor horrendo me toma: medo de despejar todas as minhas expectativas, medo de queimar o arroz, medo de abrir a porta emotiva, medo de soltar a voz. Então volto ao porão com minha luz pouca para alumiar, parcamente, uma escuridão opaca. Alegro-me, restritamente, em minha utilidade e perco minha fé enquanto exerço seus fundamentos. Do que sou não me lembro, e das minhas virtudes, motor de um coração fraterno, solidário e adornado, sobram projeções irreais de um sol afônico em um piano afélio empoeirado.

23 de out de 2012

Lá mentos

Sempre podemos achar uma boa argumentação para justificar o gosto pela música. Alguém disse que a vida sem música seria um erro. E mesmo para eles há trilha sonora!

Eu mesma poderia contextualizar este gosto e esta prioridade na minha vida de vários modos, mas prefiro focar no mais traumático, claro: ter estudado 14 anos de piano clássico, fazer conservatório, Escola Municipal de Música, a extinta Universidade Livre de Música, estudar regência com Naomi Munakata - que entre muitas outras coisas é regente do Coral da OSESP -, estudar composição com o maluco do Arrigo Barnabé, prestar Composição e Regência na UNESP e ter bombado na terceira fase do vestibular. Bom, terminei como jornalista não sei como. Mas sempre assobiando alguma canção.


E para não dizer que não falei das flores e dos clássicos, peguei-me cantarolando - com letra e tudo e em Lá com sétima (ou A7) - uma canção tão pouco cantarolada do Mestre Pixinguinha. Há versões em ré menor, outras em sol, mas não seria lamento. Aliás, Lamentos, no plural!


Sei que já há vídeos disponíveis do fabuloso Zimbo Trio ou do MPB4 com a letra, mas arriscarei confiar na minha memória para escrevê-la, e deixo aos seres que, oxalá, visitam o Porão o áudio do próprio Pixinga e seu belo sax alto.

Morena, tem pena!
E ouve o meu lamento.
Tento em vão te esquecer,
mas ai!, o meu tormento é tanto
que eu vivo em pranto, sou tão infeliz!
Não há coisa mais triste, meu benzinho,
que esse chorinho que eu lhe fiz.

                                                     
Sozinha, morena,
você nem tem mais pena!
Ai!, meu bem, fiquei tão só.
Tem dó, tem dó de mim,
porque estou triste assim por amor de você.
Não há coisa mais linda neste mundo
que meu carinho por você.


Meu amor, tem dó!
Meu amor, tem dó!



 
E aqui um áudio incrível, dele tocando "Sofres porque queres", datado de 1919.  

16 de out de 2012

Apoiscalipso

Essa é pra quando os tolos se assentarem na fama
Essa é pra quando acabarem os telegramas
Essa é pra quando as verdades estiverem sendo expostas
Essa é pra quando as minutas já tiverem propostas

Essa é pra quando abominarem o traçado da rua
Essa é pra quando falarem das prostitutas da grua
Essa é pra quando o cobrador der o alforrio
Essa é pra quando os cavalos não estiverem arredios  

Essa é pra quando a colmeia não puder reunir
Essa é pra quando perfurar a sonda em seu nariz
Essa é pra quando os reis não puderem dar jeito
Essa é pra quando a batuta não reger mais o concerto

Essa é pra quando a o cuspe for escarrado da janela
Essa é pra quando o adestrado não encantar mais com a tela
Essa é pra quando as bisnagas estiverem monocromáticas
Essa é pra quando as assinaturas não servirem pra nada


Essa é pra quando findar todo o óleo diesel
Essa é pra quando penetrar já não for mais aprazível
Essa é pra quando chegarmos no mês de Agosto

Essa é pra quando as identidades perderem seu pressuposto

"Essa é pra quando Judas retornar do inferno"
Essa é pra quando terminarem as rimas de bolso de terno

Essa é pra quando o pupilo estiver dilatado
"Essa é pra quando Deus estiver acordado"



Dran

5 de out de 2012

Raiva!

Excluí a porra da postagem sem querer!
Sem querer bati na porra do caminhão e perdi a porta do passageiro!
Quero arrancar o bico da teta de raiva, como diria a Ivi!


E foda-se, desta vez não quero opinião. Amanhã vou augustar, e é isso que importa.


30 de set de 2012

A ver do hades


Cada tentativa, cada procura, lhe é como a expansão de átomos.
A ausência, a anti-matéria, é sempre à maior potência,
e seu núcleo só se polariza pra decadência:
quando explode não sente coração, mas arritmia;
não sente pernas, mas atrofia;
só percebe o corpo quando aos membros dilacera, ávidos.


Aos olhos enleva quando chamas,
as chamas que brilham no teu céu;
uma abóbada celeste embriagada...

Extasiada, eu busco essa frequência a réu.

E ainda que eu ande pelo vale das gotas da sorte,
Não nutrirei esperança alguma,
porque plúmbea sombra me acompanha.
Tal sanha da sombras ressuma,
mas nua, que ando, não me podem impregnar:
a minha iniquidade transborda.


De certo que sangrarei à cada chaga que abres.
A ver do hades vislumbrei!
Eis que habitarei languidamente, todos os dias
até a condensação de meu amor. Ameyn. 





25 de set de 2012

23 de set de 2012

Da clandestinidade e das materializações

Não é de hoje que eu tenho minhas reservas com a coordenação vulgar que os dicionários, em geral, fazem com as palavras. Longe de mim querer exercitar aqui, também, a sintaxe, ou muito menos tentar uma aula magna, que no fundo reforçaria apenas minhas próprias convicções. Alguém já disse que não somos muito além de uma bricolagem de pequenos cacos; ora pontiagudo-arredondados, ora retilíneo-cortantes. Mais do que isso, creio que quando baixamos a guarda e a crista, e nos debruçamos sobre os diferentes contextos e históricos, o aparelho auditivo é capaz de nos conduzir a um plano interessante, que eu gosto de imaginar ser uma espécie de purgatório das ideias; de onde não se pode sair ileso.



Dando a devida importância que dou ao homo loquax, e adepta de Lacan, quando afirma ser a linguagem constituinte do inconsciente, receio haver significados estruturados e legitimados pelos dicionários que aglutinam sentidos opostos. Às vezes, pior: sentidos paralelos, sutilmente semelhantes (do latim antigo semol). Se, somado a isto, encontrarmo-nos decididos a rumar o céu ou o inferno, sem as dores e delícias dialéticas do purgatório, podemos tomar por certo um equivocado norte  (do hebraico semol).

Então, quando o homo loquax transforma-se em homo faber, do que é composta esta alquimia? De verdades feitas reais? De realidade com valores atribuídos? Quantas vezes suas verdades construíram o que você queria? "Tententender a minha ironia alegria, a sombra mostrou o que a luz escondia". 

11 de set de 2012

Todo mundo é uma ilha


Versão extraída do VHS Filmes de Guerra, Canções de Amor. "Gravado" no Theatro Ipanema, Rio de Janeiro, em 1993, com acompanhamento da Orquestra Sinfônica Brasileira e regência de um dos arranjadores mais talentosos que já ouvi, Wagner Tiso. 

O interessante deste álbum é que ele parece um armazém de secos e molhados: tem de tudo. Duas das 12 músicas foram gravadas no show feito em Nagoya, naquele mesmo ano. Só pra quem foi no show ou pra quem tem a fita original é possível degustar da canção que dá nome ao álbum, mas que não entrou no vinil.
Destaque para o blues arretado e metalizado de às vezes nunca, que, como toda frase, acaba com um riso de auto-ironia.

7 de set de 2012

Also sprach Zarathustra

Estava lá, já no final daquela vegetação rasteira, seca, pouca, monocromática.
Avistava, apertando os olhos contra os raios volumosos de um sol dourado, um pequeno quarto cuja varanda dava para o outro lado da última montanha da cordilheira.
Queria soltar as malas que carregava, vestir-se de lua e correr, correr, de olhos fechados para não saber o caminho, para não regressar.
Mas a realidade veio em forma de chuva. Riu, pensando se invés de nuvens acinzentadas,  máquinas de lavar flutuassem no céu. Olhou para cima e viu seus próprios pés. 
Se era uma quimera, não sabia, mas molhou-se. Abaixou-se, buscando algo para se proteger, e abrindo a bolsa uma criança o abraçou.
Seus instintos, quase todos, tentados a abandoná-lo; medo, angústia, dúvida. Mas seus olhos penetravam-lhe o corpo e moviam seus braços. Tomou-no e correu, tentando ainda realizar suas veleidades primeiras, mas nada mais havia em sua frente. Não sabia por onde guiar-se, só via uma escuridão fosca, lentamente, latentemente, iluminada por faróis. Soube o que vinha dali, e preferia o atropelamento a ser deixado.
Uno Moralez

  

3 de set de 2012

Shaking it out


"And I'm damned if I do
And I'm damned if I don't
So here's to drinks in the dark
At the end of my rope
And I'm ready to suffer
And I'm ready to hope
It's a shot in the dark aimed
right at my throat
'Cause looking for heaven,
found the devil in me"

1 de set de 2012

Anexim

Acolher o funesto outorga paz; e a paz de espírito é o desaferro do benevolente.

31 de ago de 2012

Clitoris

Tente não encontrar uma revista na banca que fale sobre sexualidade feminina. Elas estão lá, repletas de afirmações sobre o corpo e as relações sexuais: gozar é assim, o ponto G fica ali, os tamanhos ideais são tais... E a mulher vai se distanciando do exercício da percepção para ajustar-se às afirmações, tão legítimas! Afinal, estão publicadas numa revista! 

Daí que nesse meu caminhar esquizoide achei a Revista Clítoris. Fiquei tentada a traçar um perfil, mas decidi apenas ler. Achei tão gostosa quanto um orgasmo clitoriano! 

Ela não é tão inédita assim; já tá na quinta edição. Mas além de ilustrações com temática diferente a cada publicação e apesar de se nomearem uma revista de literatura, legal mesmo é a putaria e quantos olhares distintos pode-se dar a ela. Arte pura! 

Honestamente não entendi bem como está disposto o conteúdo de cada edição, mas vale a pena checar e tornar um pouco menos marginal essa prosa verdade, que não cabe nas revistas que circulam por aí. 

Na última edição, chamou-me atenção a crônica do Mário Bortolotto e sua semiologia peculiar. "Tenham um bom dia, se conseguem acreditar em meteorologia. Eles tinham mais é que ficar estudando os meteoros, não era não?".

29 de ago de 2012

Afrodite

Acervo - Spectrum Gothic

Foi um dos resultados da gematria judaica para o meu nome. Também deu "Robert"! E embora eu adore despontar com alguma expressão indiscreta nas fotos alheias, todos damos importância para determinadas coisas em detrimento de outras.

Mas o que nem todos fazemos é tomar consciência do que deixamos passar. Síndrome de Dom Quixote, talvez. Mas eu não estou interessada nas teorias dos finais. Amar e processar as coisas me interessa mais. Que me perdoe o Belquior, mas eu fico com Kafka!
 

Na gematria da Tabita pura, eu sou o sabath, a graça, o fogo e o Líbano. Se interessar, aqui o link do teste. E se você ficar tão certo da sua dualidade, quanto eu, não esquente: como diria o Marcelo Nova, "é só o fim".

28 de ago de 2012

Vigília

Arthur Rackham

Deitou-se e respirou profundamente, relaxando membro por membro.
O ar rodopiou na base da coluna vertebral e antes de fluir pelos chakras travou, abruptamente.
Tentou erguer os braços mas estava imóvel. E assim ficou.
Logo ela, tão inclinada ao sono, não pode dormir. Por mais que tentasse ornamentar sua realidade, engrandecer aquelas horas não era mister.
Então percebeu-se sonhando acordada;
com sombras encobrindo seu olhar,
de olhos, enlevos, lhe revelava,
luzes e formas de um alto lugar.
Como pictogramas, revia as finas gotas que bailavam no ar, ora caindo sobre os fios ruivos, ora sobre os fios dourados. E concebeu as lembranças em lágrimas, que desciam rosto afora desenhando seus traços, como fizera as mãos dele.
Não quis acordar.

 

24 de ago de 2012

Le Retour au Pays de L’enfance

O CINUSP Paulo Emílio recebe hoje, 24, a documentarista francesa Claire Angelini, que exibe um de seus longas-metragens mais importantes:  Le Retour au Pays de l’Enfance.

Realizado em 2009, o documentário inédito no Brasil enfoca o retorno de três mulheres aos seus países natais, de onde foram forçadas a fugir por conta de guerras. Marie-Hélène, francesa, Sieglinde, alemã, e Narriman, argeliana, voltam uma para Barentin, outra à Stolp e a terceira à Sakiet Sidi Youssef. 


Como suas histórias e seus passos se inscrevem na paisagem? De onde somos nós? O filme examina relações entre memória subjetiva, territórios e a consciência do adulto, e mostra como as pessoas podem ser afetadas pela história do local em que cresceram.


O CINUSP fica na Rua do Anfiteatro, 181 - Colmeia, Favo 04, na Cidade Universitária.
A entrada é franca.


Com informações do CINUSP

Desideratum


21 de ago de 2012

14 de ago de 2012

Relation chips

Não existem, quase, mais relações; existem projetos. 
Ontem ouvi um maluco do catarse.me - rede de financiamento colaborativo do Brasil - falar, durante um Seminário Avançado sobre Crowdfunding e produção midiática na área cultural, sobre os projetos que passam por eles, e da importância de terem começo, meio e fim. Sua finitude viabiliza o mapeamento do sucesso e do alcance dos objetivos traçados. 
Penso que essa característica migrou para as relações, especialmente aquelas fora do seio familiar; neste caso, as pessoas se suportam e se descobrem a cada adversidade, em nome da segurança (se é bom ou ruim... é um fato!).  
Nas demais esferas da vida social, há amigos que se vão quando acaba um curso, um "projeto", mas que deixam aquela saudade gostosa e aquela única foto, que você guarda como se tivesse tirado ontem;
há amigos que se vão em alguma situação mal resolvida e que nos deixam consternados, sempre com aquela sensação de que, como em um sonho, tudo irá se resolver naquele discurso pronto que, um dia, poderá ser dito e esclarecido em uma garrafa de Serra Malte;
e há aqueles que se foram nas asas do vento e deixam muita dor. 

Mas certamente há pessoas cujas relações se desgastam por pura falta de respeito mútuo, falta de paciência em aceitar a diversidade. E isso não é tomar rumos diferentes daqueles que te cercam, isso é sacanagem! Quando tudo aquilo que te encantava no outro vira motivo de questionamento, deve ser porque o projeto acabou, e não bateu as metas!
Como disse o Camelo, brilhantemente em O Vento: "se a gente já não sabe mais rir um do outro, meu bem, então o que resta é chorar". Ou mudar. Não?!?

 

3 de ago de 2012

Письма Елены

Porque vc é um espelho, cuja bruxa da face mais castigada se olha e vê uma bela princesa, que é você;
Você é meu ideal platônico, e a melhor parte de mim. E sem você é tudo muito difícil de encarar. 

Sem a leveza das tuas saídas para os meus problemas eu sou só uma criança chorando num corredor de hipermercado por não saber onde estão seus pais.
Eu não sei lidar com iniciativas nem com finais, só com processos. Por isso tudo ficou silêncio. E embora eu adore um trauma, admito que gosto mais do som da sua voz. 

Andrew Ferez

26 de jul de 2012

Eupátheia




"A pedra que afia a lâmina, consome-se no mister".
(Divaldo Pereira Franco)

14 de jul de 2012

Coming Back To Life

O branco estúpido do editor de texto bisbilhota minhas frações de pensamentos com ruídos intermitentes; e vibra na mesma frequência das ondas extraterrenas que escuto, no labirinto equivocado que carrego emparelhado a ideias conspiratórias.

Absorto neste processo, minha vista se embaralha: primeiro duplicando, depois quadruplicando - sempre em pares - as sombras galácticas que se formaram a partir de meu globo ocular, que tenta enxergar a si mesmo.


Pisco os olhos lentamente, um de cada vez, e em momentos simultaneamente eternos, pesarosos e voláteis, retomo o cabresto de mim dilatando as pupilas, num esforço animalesco de proteger o colorido que ainda me resta.


Novamente vejo brancos a geladeira, o armário, a parede. Ainda espesso e grosseiro, um ar gélido e ardente me penetra violento, me baratinando de realidade. Então uso a força da minha incompetência para dar peso na balança da vaidade de minhas responsabilidades morais. 

E constato, com tendões esticados, do alto de meus esforçados 1m e 57 cm, quão longe fui, e quão distante estou do que poderia ter sido.


Klimt - Caminho jardim com galinhas


11 de mai de 2012

Consciência voadora não identificada




"No wonder they don't understand
Wheels within wheels
In a spiral array
A pattern so grand
And complex
Time after time
We lose sight of the way
Our causes can't see
Their effects"

25 de abr de 2012

I Encontro Gaia

No próximo dia 27 de Maio, Paranapiacaba sediará o I Encontro Gaia.

Programação completa aqui
A escolha do local não poderia ter sido mais acertada, já que "Paraná" reúne diversas tribos e pessoas com nobres intenções, mesmo que seja a mais inocente delas: confraternizar-se. Lá já ocorre o famigerado Festival de Inverno, no mês de Julho, com diversos nomes da Música, além da também aclamada Convenção de Bruxas e Magos.

Embora tenham se projetado e se movimentado, as "irmandades" têm poucas oportunidades de se encontrar. Na verdade, as pessoas são cada vez mais independentes em seus ritos, por vários motivos: falta de tempo, constrangimento, individualismo. Portanto este, bem como os diversos encontros que ocorrerão em Maio, são belas chances de aprender a praticar fé e crenças de maneira rica e cheia de diversidade, como é a Grande Mãe.

Como observou Tania Gori, estudiosa de ocultismo e responsável pela Convenção em Paranapiacaba, o mês de maio tem um significado especial para o budismo, xamanismo, como foi para os celtas. Segundo ela, "
na religião Wicca esta data representa a união do Deus e da Deusa representando a fertilidade dos animais e a colheita do próximo ano".

7 de abr de 2012

O início, o fim e o meio

Indigesto, o filme sobre Raul, para quem o achava apenas um grande cantor, um símbolo da música popular brasileira. Para os fãs, surpreendente. Mesmo aqueles que o seguem há anos, que vão às passeatas em sua memória, em São Paulo; que vão na bagunça do cemitério Jardim da Saudade, no aniversário de sua morte, em Salvador. Nas duas horas e quinze de filme, a plateia riu – muito! -, suspirou e, ao final, terminou ainda mais confusa sobre a figura de Raul Seixas.

 Eu o considerava um contra-artista por falta de termos que o personificassem melhor, mas acredito que dentro das limitações que qualquer forma de expressão tenha, esta definição seja a mais próxima dele mesmo, ou de suas ações. Afinal, conhece-se uma árvore pelos seus frutos.
Prometendo não fazer nenhum spoiler, ou talvez uns poucos, diria que Walter Carvalho foi extremamente sensível, mas sem baitolagem. Ele penetrou fundo nas relações de Raul e esta foi sua linha editorial. Nem precisou de opinião, de tendência: pesquisar sobre o cara deu um rumo certeiro na produção. E este é um argumento ao qual quero me ater para dar rumo a estas humildes observações.

Quem viu o documentário, ou quem já ouviu as declarações de Paulo Coelho, sabe que Raul era um underground. Ele vivia cercado de gente, influenciado, mas era senhor de si. “O maior companheiro do Raul se chamava Raul Seixas”, afirmou Paulo no documentário, enquanto uma mosca pousava em seu braço. "Eu nunca vi mosca em Genebra!", constatou abismado. Por isso acho que ele era um desses sujeitos cujo destino é traçado nos primeiros anos de vida. Com 12 anos, ele tocava em um rock clube, fumava, enfrentava sutilmente a família e bebia. Bebia muito. Seu comportamento “destrutivo” era o grande motor de suas produções. Então, era escolher entre ser um velho arrependido de seus pecados, gagá, provavelmente um religioso desses teóricos, interrompendo o fluxo vertiginoso de sua criatividade, vivendo uma vida medíocre ao lado de Lena – mulher de muito boas intenções, mas uma chata – ou ser o Raul. Aqui entra o Marceleza.

Como admiradora do R´n´r e boa “fia de baiana”, não posso deixar de vibrar com as crias soteropolitanas. Claro que Raul foi o grande precursor do movimento no Nordeste, mas ele foi pro mundo. Quem permaneceu, anos depois, fazendo a manutenção, próxima do público, jorrando riffs de guitarra e ideias subversivas foi uma banda chamada Camisa de Vênus. E quando Marcelo Nova lança sua carreira solo com a Envergadura Moral, Raul está em um momento down da carreira. Ele tava na merda, mesmo.

E quem poderá desconfiar das intenções de um fã, de alguém que é capaz de afirmar que deve sua carreira a Raul? Lena. Ela e alguma parcela do público do Raul que não entendeu nada sobre a perenidade da vida; que vive presa às amarras da encarnação. Não fosse Marcelo, outro apareceria para levar Raul de volta aos palcos – a única coisa que ele amava mais do que tudo, mais do que as filhas, mais do que as companheiras, mais do que a própria vida. Marcelo deu um sopro renovador na vida de Raul, que em meio àquela loucura toda de internações seguidas, doenças, alcoolismo e separações, conseguiu ordenar as ideias de Raul para mais produções talentosas que nasceram desta parceria: Carpinteiro do Universo, Banquete de Lixo, Pastor João e a igreja invisível.
E quer mais certeza de uma vida vivida com integridade e em paz de espírito do que a forma da morte? Não é regra, mas privilégio um cara sedento como era, que buscou se conectar com a energia criadora de tudo que foi maneira: sacrificando animais, cantando, compondo, transando, gerando filhos, drogando-se, estudando (Direito, Psicologia, Filosofia, Ocultismo), morrer dormindo.
Saí tristonha, pelas cenas chocantes do fim no fim do documentário. Mas agradecida por poder desfrutar de sua genialidade.

5 de abr de 2012

Inner Truth

Quase me convenço de que a máxima gnóstica "anima semper scit" não é apenas uma fachada, dessas robustas e impenetráveis, comuns ao universo oculto. Com o tempo, e em determinado estágio, a busca pelo conhecimento em resposta às indagações mais intrínsecas da alma te fazem girar, correr, escorregar por degraus e cair no mesmo lugar. Mas é bem aqui, diante dos mesmos corredores, que a luz pode iluminar o canto mais inóspito do entendimento. Ou não.

Entre os mais versados psicanalistas, a inclinação à mitomania pode explicar e, por si só, dissolver a capacidade humana de atribuir poder, verdade, justiça, e tantos outros valores, a entidades espirituais. No entanto, mesmo o fundador da Psicologia analítica, o suíço Carl Gustav Jung, estabeleceu uma relação entre o estudo dos elementos constitutivos da mente e as personificações. Aliás, mais do que isso: Jung mostrou-se, publicamente, interessado na maneira como os místicos compreendiam o mundo. Em 1916, ele publicou  o livreto "Sete Sermões aos Mortos" - oriundo de uma experiência com espíritos que teriam intervido no mundo físico através de objetos. Assustando-se, Jung teria ouvido vozes dizendo-lhe "voltamos de Jerusalém, onde não encontramos o que buscávamos". Eventos estranhos a parte, o interessante é observar como o tom da narrativa muda neste texto, verossímil, impositivo. Não fosse atribuído e reconhecido por ele, jamais acreditaria ser de sua autoria.
Eis porque vos falo do mundo criado como uma porção do Pleroma, mas unicamente em sentido alegórico; pois o Pleroma não se divide em partes, por ser o nada. Somos também o Pleroma como um todo; visto que num aspecto figurativo o Pleroma é um ponto excessivamente pequeno, hipotético, quase inexistente em nós, sendo igualmente o firmamento ilimitado do cosmo à nossa volta. Por que então discorremos sobre o Pleroma, se ele é o todo e também o nada?

Outro evento histórico que evidenciou sua predileção pelo gnosticismo foi a aquisição do Codex Jung por seu Instituto. Embora criado numa tradição ortodoxa (seu pai era pastor luterano), Jung colaborou na tradução de parte do Nag Hammadi e considerou o gnosticismo uma importante ferramenta da "obtenção da plenitude da alma" (Stephan Hoeller). 

A versatilidade de Jung parece ser a grande responsável pela riqueza de sua obra. Além de notável estudioso, era artista plástico, desenhista, miniaturista e médium - para alguns, leia-se esquizofrênico, já que afirmou ouvir vozes e dialogar com elas, capacidade que sua mãe também possuía. Estes talentos foram conhecidos do público recentemente com a divulgação do Liber Novus ou Livro Vermelho, que foi escrito a mão detalhando suas viagens pelo inconsciente e descrevendo, também por desenhos, diversas imagens arquetípicas. Somo a essa versatilidade a própria dualidade que ele viveu, hesitando entre personalidades e entre sua emancipação e a subserviência ao tutor e mestre, Freud.

Trecho de "Jornada da Alma" - dualidade razão X emoção e a relação-conflito com Freud


Sua consternação aumentava à medida que suas ideias tornavam-se mais numerosas e autônomas, e nenhum de seus tratados pareceu diminuir sua angústia. E conforme se entregava aos devaneios de seus sonhos, menor era sua vontade de viver esta vida, tão vulgar e efêmera, como relata em sua autobiografia:

"Todas essas visões eram magníficas. Eu estava mergulhado, noite após noite, na mais pura beatitude, “no meio das imagens de toda a criação”. Pouco a pouco, os motivos se misturavam e empalideciam. Comumente as visões duravam aproximadamente uma hora, depois tornava a dormir e logo de manhã sentia: “De novo uma manhã cinzenta! Volta o mundo sem cor com seu sistema de alvéolos. Que estupidez! Que terrível loucura!”
No retorno de um de seus sonhos e já na velhice, em meio a doenças, Jung vai-se despojar parcialmente de suas teorias e demonstra encontrar na aceitação do destino e na intuição o inefável caminho do autoconhecimento.
"Também compreendi que devemos aceitar os pensamentos que se formam espontaneamente em nós como uma parte de nossa própria realidade e isso fora de qualquer juízo de valor. As categorias do verdadeiro e do falso certamente sempre existem, mas porque não são constrangedoras, ficam à margem. Porque a existência das idéias é mais importante do que seu julgamento subjetivo"

17 de fev de 2012

Amoreba Textual

para além da suruba, um amor em comunidade - por Yuna Ribeiro
Pra mim é muito difícil escrever sob encomenda, é um desafio, um deleite, mas é também um sofrimento, tá certo que é um sofrimento daqueles... gostoso, sabe!? E sobre um tema inusitado, porque vindo de uma pessoa singular e especial como tal, não poderia ser diferente.
Bom, o amor para além de duas pessoas, de um casal, um amor entre quatro, cinco, por um número indefinido de pessoas, porque a quantidade não importa nesse caso. Pessoas que convivem amorosamente, com relações sexuais ou não, com níveis de convivência variados, mas todos com algumas coisas em comum, a capacidade de criar vínculos e o desprendimento. Talvez, uma necessidade de carinho, de fazer parte, de estar conectado, que não basta uma metade, é preciso mais, uma relação complexa, entre várias pessoas, que pode ser tão mais complexa? Ou tão mais simples?
Na verdade tudo isso é um grande mistério pra mim e, confesso, me causa uma curiosidade intrigante. De certa maneira, consigo entender e até me interessar por alguns aspectos.
Imagina não precisar ter medo de ficar sozinho, ou ter companhia para as atividades mais diversas, se sentir amado, olhado, compreendido nas diferentes facetas e momentos. Será que estamos preparados para nos doar nessa proporção, deixar a vaidade de não ser único e de não possuir coisa alguma, principalmente o controle da situação. Tá, controle é pura ilusão, até quando se trata de nossas próprias ações e sentimentos. Mas, imagina ter a ousadia de se deixar levar, se misturar, dividir, acreditar, amar várias pessoas ao mesmo tempo, cada uma em suas singularidades, formas e emoções.
Acho que não estamos preparados, culturalmente as condições para esse tipo de relação ainda não foram construídas. Provavelmente, dentro das relações de poder entre indivíduos e instituições, nem existe o interesse em criar essas condições, vivemos numa era de individualismos déspotas e isso é lucrativo demais para o lado que está ganhando dentro desse jogo de poder.
Vivemos um tempo apressado, sentimos medo demais, estabelecemos relações na base da competição e da propriedade, precisamos dominar e ser melhor que o outro para assegurar nossas inseguranças. Ciúme, falta de chão, necessidade de agradar a todos, necessidade de corresponder a expectativas desmedidas, necessidade horrorosa de nos colocar como um produto vendável e competitivo no mercado alucinado das relações amorosas. Sim, é esse o cenário preponderante e construído pelo sistema em que vivemos. E quer saber, até as relações a dois andam desacreditadas.
Estamos nos acostumando a não ter o apoio emocional e o aparato sólido de uma vida em comunidade, fazendo parte de um coletivo, temos cada vez mais que nos virar sozinhos e, qualquer fracasso ou dificuldade é nossa completa e exclusiva responsabilidade. Não somos mais responsáveis  uns pelos outros, assim como o Estado é cada vez menos responsável pelas condições de sobrevivência de seu povo. E assim, nesse empurra empurra de responsabilidades, seguindo uma lógica absurda, seguimos sozinhos, independentes e amargurados.
Em contrapartida, a capacidade e liberdade para fruir a vida, não sofrer metodicamente com o imponderável e aceitar que de fato controlamos nada, acaba sendo uma necessidade urgente dos que ainda têm um amor enorme dentro de si, dos que estão dispostos a criar vínculos amorosos e fraternais sinceros. Nesse caso, moralismos e logísticas a parte, não importa se isso acontece entre um casal ou entre mais pessoas.
Acredito que qualquer tentativa em criar condições reais, físicas e psicológicas para que os laços possam acontecer é válida, sem cobranças, sem pressa, simplesmente porque as pessoas estão juntas, dispostas para conhecer profundamente o outro, não importando qual é o número dessa relação. Pessoas que resolveram se dedicar umas as outras, dedicar tempo, amor, cuidado, com espaços comuns, com suas diferenças e semelhanças, se despojando de limitações políticas e morais. Fugindo do vazio, do raso, tendo coragem para o vínculo construído com calma e ao longo do tempo, numa concepção de amor livre de armadilhas e amarras moralistas, que no final das contas não passam de mesquinharias do poder econômico. Por que não?
Revista Trip


15 de fev de 2012

Komba

Hoje mais um guerreiro tomba; mais um tanto de matéria aduba a Terra, mais uma alma ruma o Sol. "Bom te ver", ele dizia com meia boca sorrindo, meia apertando o Hollywood. Sua altura era proporcional à simpatia, e estranhamente complementar à pequena estatura de sua esposa, que, somando à controvérsia, sempre seguiu forte, austera, disposta.
E por mais que esta seja a continuidade da história dele, e deles, meu egoísmo é suficientemente poderoso para apontar o dedo na cara do céu e lembrar da minha própria amargura. 
Agora, com olhos arregalados a espreitar, a ansiedade segura safada um riso histriônico; com os mesmos dedos que contou os anos que perduraram sem que nenhuma presença fosse arrancada, numera agora as mortes que levaram uma parte de sua natureza.
Inchando-se de lembranças engorduradas, sente o estranhamento de novas formas sendo criadas em seu próprio contorno: uma ansiedade em evolução que aspira, um dia, festejar recomeços sem lamentar os finais.

20 de jan de 2012

O coração envenenado de L. Stevaux

L. Stevaux

Diante de um registro fotográfico como este, que evidencia traços lânguidos e femininos desta bela mulher, sequer suspeitamos de seu excêntrico gosto pelo mundo das obscuridades. E se é lá, no submundo, que se encontra a árvore do conhecimento, Lívia Stevaux já está sentada em algum de seus galhos, comendo a maçã. 

Com apenas 26 anos e já somando três contos, sua escrita envolve o fantástico, o brutal e o terror. "Mas no fim das contas os três são sobre amor. Que merda", constata ela, que, como muitos, vê dificuldade em publicar seus escritos.

 
TP: Seu primeiro conto foi publicado em um livro, é isso?
LS: Na verdade eu já publiquei dois contos, os dois em antologias da Andross Editora. O primeiro saiu no livro "Histórias Envenenadas", uma compilação de contos de fada de terror. Nem todo mundo sabe, mas na verdade os contos de fadas nasceram como histórias de terror com fundo moralizante, contadas de geração em geração para ensinar valores morais para as crianças. E havia belas doses de sangue, estupro, canibalismo e mortes hediondas nessas histórias, que estavam longe de ter finais felizes. A proposta da antologia foi resgatar essa origem dos contos de fadas. Alguns autores reescreveram histórias já famosas, outros, como eu, decidiram escrever histórias originais.
Meu conto se chama "O Coração de Adeline". Tentei manter a fórmula básica desse tipo de texto, então como todo bom conto de fadas, o meu tem uma lição de moral. Acho que poderia ser resumida como "cuidado com o que pede, pois certamente lhe será concedido".


TP: E quanto aos outros?
LS: O segundo conto foi publicado na antologia "Tratado Secreto de Magia - Volume 2". O tema dessa vez foi bem mais amplo, pois os contos poderiam ter qualquer tema, desde que houvesse magia envolvida, de alguma forma. Meu conto neste livro é "A Filha da Lua". Era pra ser um nome provisório, mas me acostumei tanto com ele que não consegui mudar. Acabei escrevendo um conto bem fantástico, tendo como inspiração a música "Ocean Gypsy", do Blackmore's Night, uma das minhas bandas favoritas. [do Porão também!] Porém, quando reli o texto meses depois, percebi que há bastante de "Stardust" nele, rs.
Agora já tenho um terceiro conto pronto. Porém, pelo contrato de publicação da editora cada autor deve se comprometer a vender ou comprar uma cota de vinte livros. Isso torna o custo da publicação bem elevado pra quem não vende muitos exemplares no dia do lançamento. Então estou pensando em maneiras alternativas de arrecadar fundos para custear a publicação.  

TP: Qual a temática deles? Há ligação com alguma face da subcultura, ou da cultura underground?
LS: "O Coração de Adeline" é uma história contada em primeira pessoa sobre os horrores vividos pelo protagonista em busca de algo que desejava. Há um clima bem sombrio e insólito, bem próprio dos contos de fada originais, creio eu. Como autora, eu vejo nele uma ligação bem forte com a cultura gótica, uma vez que o estilo da narrativa foi fortemente inspirado pelo estilo de Allan Poe, um dos nomes mais celebrados na área da literatura por essa subcultura. Já "A Filha da Lua" posso dizer que é, basicamente, uma história de amor com muitos elementos fantásticos e um quê de fábula.  Aliás, no fim das contas os três são sobre amor. Que merda.
O conto não publicado ainda não tem título  definido e é bem diferente dos dois primeiros, pois não contém nenhum elemento de fantasia. São sete histórias que se passam através dos tempos, desde o século XVII até os dias de hoje. Não vou falar muito sobre ele pois é um texto curto, vou acabar estragando a surpresa rss. Mas você pode pensar o que pode haver em comum entre a São Paulo dos dias de hoje, um cabaré do século XIX, a pirataria do século XVIII e William Shakespeare! 

TP: Sua formação acadêmica lhe deu os subsídios necessários para entrar neste universo ou você já esteve trilhando esse caminho antes?
LS: Minha história com a escrita e com o curso de Letras é bem curiosa. Eu me lembro de escrever desde que aprendi as primeiras letras. Adorava fazer redação na escola, ao contrário da maioria. Quando eu era criança, uma vez perguntei pra minha mãe que faculdade eu precisava fazer para ser escritora. Na minha cabecinha, existia um curso capaz de te formar um escritor como Ziraldo ou Ruth Rocha (meus favoritos na infância) rs. Quando minha mãe falou que isso não existia, mas que eu poderia fazer Letras, decidi que seria isso que eu faria. Claro que durante o percurso mudei inúmeras vezes de opção de curso, cheguei a passar em Negócios da Moda, mas não teve jeito. No fim acabei escolhendo Letras mesmo. Acho que o curso me ajudou a me aprimorar nesse universo da escrita. As aulas de literatura infantil do professor Alexandre Blaitt, da Universidade de Sorocaba, me deram a base necessária para escrever "O Coração de Adeline". Mas de certa forma, acho que a universidade só te mostra o caminho, cabe a você escolher trilhá-lo da melhor maneira possível. 


Você pode encontrar os livros para os quais Lívia contribuiu aqui. Ela está "pensando em maneiras alternativas de arrecadar fundos para custear a publicação" e disposta a desmitificar alguma historinha pra boi dormir...
   

18 de jan de 2012

White Floyd

From the album Substance, New Order
Eu já vi esta sensação, viscosa, nula, ausente de meios, antes. Mas antes ela era inteira branca, vazia, posto que era a primeira. Agora é branca opaca, alaranjada, e piso neste ciclo, vibro nesta frequência mais uma vez.
Agora, como em alpha, vejo meu corpo da ponta, da ponta do meu nariz. E encosto os dedos nos "bicos" dos meus seios como se fosse de outra raiz.
Não excito, mas ligo por não mais ter nas mãos as claves das outras sinfonias. Os acidentes, as correntes; o andamento, o tempo e o tom das culturas, daquelas partituras.

                               "Só vejo obscuro, objeto, desejo indireto" 

Só sinto por ser tijolo nesta grande obra e ser destinada à sorte do ajudante. Na hora, que formato darei?
Mas nutro secretamente a pretensa esperança de poder, 'inda consciente, pisar nas próximas fases deste ciclo e gozar de seus regozijos, vícios, com um nariz maior.