19 de out de 2013

Amora



Elizabeth Sobkiw


Nada de estranho o teu encanto me falar
Adjuntos adverbiais de modo etilizados
E o teu olhar de amapoa me enfeitiçar

Naquela noite de acalanto, na esquina de um atalho

Eu procurei uma rima rica que traduzisse seu conjunto à toa
Mas meu pensamento voa montando um jogo dos seus traços

Santa margarida tupinambá


Abracei o seu abraço e argumentei à sua utopia
cores de batom abstracionistas
desvarios niilistas

E agora que te dispus ordinariamente
entre bukowski e baudrillard
aquele trecho do poema dos teus dentes

emergente faz de novo a mente gestar

26 de ago de 2013

Quebro cabeças


Termino de montar cada frequência, cada suspiro, cada gemido em cada estação de cada ano de cada uma das minhas cabeças. 
Ao final, tenho aquela flébil sensação de terminar de ler um livro de histórias entrecortadas que se revelam intrínsecas, no final, e afinal perco as razões para existir, por alguns segundos. 
Logo que percebo que apesar de todas as palavras mágicas e desejos trágicos não consegui ser arrebatada, levanto e tento formar as peças, novamente. 
Daí sim, elas ficam ainda mais sem sentido.



29 de jul de 2013

Faun


Este mês de Julho teve a madrugada mais fria da década. No último dia 24, foi registrado pouco (pouco mesmo) mais de 5º Celsius na capital. Infelizmente - e como ocorre sempre quando saímos demais do prumo a que fomos acostumados - também foram registradas mortes causadas pelo vento gélido da noite.


Para além das condições de humanidade básicas de que o Estado priva seus filhos, fico imaginando como seria se além de abrigo, uma bebida quente e uma acolhida digna, toda a cidade pudesse experimentar coletivamente o calor de uma canção. Assim como Héstia, Baco e Deméter, Faun fosse cultuado, não por medo, esperança ou obrigação, mas por pura e imediata empatia. E nele, há aquela delícia do prazer que provém do aprendizado.  


Não se sabe ao certo sua origem e, de fato, qual sua ligação mais verídica: se com Pã - o deus grego dos bosques -, se com o rei Lácio, de Roma, ou com Marte e Saturno - seus ascendentes diretos. Mas sua imagem, ainda que confundida com a dos sátiros gregos, sempre nos remete a um ser de aparência agressiva, semblante e intenções duvidosos. Para muitos de nós, essa imagem foi reforçada no filme O Labirinto do Fauno, que teve menção por aqui.


Por outro lado, os registros a que temos acesso sobre ‘Faun’, nos descreve um deus intimamente ligado à música. Com uma canção envolvente, a ele foram atribuídos o dom de tocar gaita e a criação da charamela.


E neste mês frio, eu conheci uma banda que olhou através da carranca do Fauno para descobrir a beleza de sua música. A banda Faun foi formada em 1998 em Munique, Alemanha. Porém, o primeiro álbum só foi lançado em 2002. A banda possui uma fórmula musical muito interessante, combinando elementos da música medieval, celta e folk com sintetizadores de computador. A presença marcante de mitologia em suas letras, escritas principalmente em Alemão, mas também figurando o inglês, finlandês, islandês, latim, espanhol e muitas outras que não consegui identificar :P, conferem à banda uma identidade e personalidade difíceis de se encontrar nas bandas modernas do gênero. Inda mais porque, de certa forma, as bandas folk vêm reforçar a identidade de um país, uma cultura. Quando uma banda alemã canta em espanhol, ela alarga suas fronteiras; como se afirmasse que sua cultura ultrapassa seu território.


Nenhuma letra deles faz menção direta à Faun - embora faça à Pan (cujo vocal não poderia me lembrar ninguém mais que Ian Anderson, Jethro Tull) e aos Satyros - mas nem precisa, viu?! Com esse nome e com todos os instrumentos que usam, aquela atmosfera bucólica e salvagem se faz presente.   





* Este post é cheio de referências da banda porque foi escrito à quatro mãos! As outras duas são do Everton Matos, que desde sempre traz as novidades mais quentinhas e interessantes do Folk Universe. 

18 de jun de 2013

Video of the day

 

Apesar de ainda questionar por que no Largo da Batata e não no Largo da Matriz, em Itaquera, acredito sim que o gigante acordou. Antes eles discutiam no café Filosófico ou no Starbucks da Alameda Santos, agora todos nós discutimos! E tem aquele tio que você julgava super despolitizado indo pra Praça da Sé. 

É esse tipo de assunto que tem que nos pautar! Que orgulho ouvir meu avô perguntando o que está acontecendo e mais: dando o maior apoio. 


Temos tudo pra finalmente sair daquela zona que a Chauí fala em seu livro "Simulacro e poder: Uma análise da mídia" em que o repórter não mais pergunta ao entrevista o que ele sabe ou viu, mas o que sente. Isso porque na dinâmica da mídia, é o veículo por meio de seus apresentadores e jornalistas que cumprem o papel do saber absoluto; é também o veículo que tem a prerrogativa de ter de dissolver o conteúdo dos fatos cotidianos para facilitar a compreensão do espectador. Mediar.

É a terapeutização da sociedade, da qual também fala Lasch: um método de conceber as relações sociais e políticas por um viés privado, abolindo a memória dos acontecimentos reais e favorecendo sua manipulação. 

Acontece que as coisas aqui acontecem tão descaradamente que, com o auxílio das redes sociais - que, defendo, devem ser legitimadas como verdadeiros caminhos da trajetória individual, e não apenas um item de "embelezamento" do sujeito -, novos canais de informação têm sido buscados pelas pessoas de maneira geral, o que tem levado a insatisfação a níveis de intolerância motivadores.

15 de jun de 2013

Brazilian Spring

Lisiane Cauduro
Porque até nós, conformados, atrasados e adjetivados fomos tomados pela ira. Estamos esgotados por tantas promessas esquecidas ou mal cumpridas e de políticos sem governança que depois de fazerem o que querem e como querem terminam recebendo menção honrosa e prêmios no exterior. "Aqui ninguém vai sequer morrer no Vietnam; aqui ninguém vai ra-ta-ta-tar no Viet Cong. Os garotos daqui não vão amar ninguém, é que eles ainda morrem de fome antes de ser alguém" (e de sede, num Nordeste que é árido desde que o povoamos e todos esses engenheiros que fazem estádios moderníssimos não são capazes de resolver, a modelo do que fez Israel, o problema da seca!) 


Thiago de Sousa Leal
Vocês, franceses, alemães, árabes, já passaram por isso. Sabem como é mudar um país, tentar livrá-lo das garras da repressão, fazer seu povo ser ouvido. Então não leve a mal que nossas cidades estão desordenadas: estamos em obras políticas! A gente pode super ser a maior economia emergente dos últimos tempos, mas, pasmem, nos faltam hospitais, empregos, educação de qualidade e segurança: nossa taxa de latrocínio triplicou nos últimos 10 anos! Uma onda de violência que tem se intensificado desde o ano passado com os atentados das facções criminosas, com o despreparo da polícia na reação ao crime organizado e na consequente insatisfação da população que já se habitua com notícias como "Estudante foi baleado e balconista morreu mesmo sem reagir em assaltos na Zona Oeste". Ou vocês acham mesmo que a gente adoro o título "O país do carnaval e do futebol" ?!

A juventude de 1968 retornou e está nas ruas. Neste momento, com todos os erros e acertos das grandes massas, eu ponho minha confiança no movimento. Tomara que assim, nos politizemos de vez, e tenhamos autonomia de defender o que conquistamos e acreditamos sem nos deixar cooptar pelo Estado. O diálogo tem que existir e tem que ser plural. Não existe inteligência na unanimidade.



3 de jun de 2013

Seresta

Meu coração é como o clima paulistano,
num mesmo dia sou inverno e sou outono
com essa presença do seu vulto inoportuno.


E em meu peito tempestuo amargurada
conversas quentes sob a chuva na vidraça,
ruídos surdos de um silêncio em badalada. 


Na longa noite imediata dos meus olhos
chuvilham pílulas nocebas demulcentes,
fulguram pintas semifusas emergentes.
 

Mas tu, que fazes nas notas dessa gaita?
Por que visitas a modinha já entoada?  

Deixa que os raios do verão ressequem a fenda.
Mesmo que tenha em tua mente sempre a certeza
de entre tantos seres o dono da aposta,

a fratura não exposta.
 

Leva os teus sinais que a saudade dói como um barco
cujas águas não deixam rastro
e o destino segue as sortes do acaso.
 


28 de mai de 2013

Video of the day



Post pingback do blog-lugar-querido Pena-Negra:


"Pra quem não conhece Arkona, é uma banda de Pagan Folk Metal proveniente lá das terras gélidas da Rússia. Sua sonoridade vai desde músicas quase que tribais até músicas com guitarras pesadas ao extremo. Outra forte característica são os guturais da vocalista Masha "Scream" Arhipova que pode também abusar de sua voz em canções mais leves, sem guturais, com igual maestria. Fora todas as características técnicas da moça, ela também é uma tremenda duma gata, como você pode ver aqui.
É incrível como a cada álbum novo que essa banda lança eles estão melhores que no anterior.
Confesso que estou ansioso pelos próximos álbuns para ver aonde isso vai parar."
 
Izaque Valeze é historiador, meu amigo há alguns anos e infelizmente não podemos mostrar nossas fotos da última viagem que fizemos à Alemanha porque elas se perderem no Teste do Ácido do Refresco Elétrico.





9 de mai de 2013

Osum

outra manhã, me percebo vivo
tal folha ao vento, inda o peito aduma
te vejo ave, vejo areia em ara

te vejo homem, toda enluarada

percurso brenha paro na piaçaba 
clareira e prece, olhos escondidos
recebe o corpo, voz em toada


rasgo o algodão do rancor querido
retalh o pan o suor en água
reluto o gume do corte antigo
colore as mãos o vermelho sara





Porque hoje eu tô Remanso;
porque essa menina foi um achado na êmepêbê;
porque água de benzê: alcohol só para desinfetar.

3 de mai de 2013

Mi mi mi

 
Beijo pra vc que não erra! mi mi mi pra vc que não se engana, que nunca se iludiu. 

Caguei pra vc que se orgulha tanto da sua caminhada retilínea! Eu sou cheia de curvas, faço muito uso do meu atlas e do meu áxis; vejo sempre um horizonte diferente e não tenho vergonha nenhuma de me desesperar, de errar, de voltar atrás e de tomar um novo caminho velho; um velho caminho novo. 

Eu não tenho medo de ser feliz. 

Cena de Down by Law



 

19 de abr de 2013

Gott ist tot

Eu disse que desvirtuaria o video of the month. Mas brigar contra o riff do Tony é semelhante a discutir o sexo dos anjos ou quem nasceu primeiro: deus ou o diabo.



“O reino da bondade começa onde a nossa imperfeita percepção deixa de notar o 'impulso do mal' porque se tornou demasiado subtil; a partir desse ponto, o sentimento de que entramos no reino da bondade excita os nossos impulsos que se sentem ameaçados e limitados pelos 'impulsos do mal': os sentimentos de segurança, de conforto, de benevolência. Quanto mais imperfeita for a nossa percepção, maior será a extensão do bem. É por isso que as crianças e pessoas comuns gozam de uma eterna boa disposição e também por essa razão que os grandes pensadores sofrem sempre de uma melancolia semelhante à de uma má consciência.” (Die fröhliche Wissenschaft: 53)


Em Tempo: Embora faça referência à Nietzche neste primeiro single do álbum "13", a música "God is dead?" segue acompanhada de um ponto de interrogação e de um sonoro I don´t believe that God is dead, de Ozzy, que afirmou em entrevista para Zane Lowe, da rádio BBC, que embora tantas pessoas morram em nome da religião, "ainda há um pouco de esperança".
A entrevista começa aos 45'46". 

12 de abr de 2013

4 no 1

O que está acontecendo com o Brasil?

Sábado passado estive no show do The Cure. Entre as peculiaridades que só as aglomerações de pessoas podem conter, a constante era observar como parecia que um grande armário dos anos 80 havia sido aberto naquela noite, naquela hora, naquele lugar. Estampas over, acessórios neon (que deveriam vir acompanhados de um interruptor para "desligar"), jeans rasgados estrategicamente nas partes que deveriam esconder e - os mais questionáveis - saltos; saltos para todos os lados, em pessoas que passaram as próximas 3h e 22 em pé e apertadas.


Mas como não entendo de moda, eu só me perguntava se elas não pensavam em conforto e uma pitadinha de coerência. Mentira! Eu queria mesmo era ver o Robert Smith! Até que tomei um pisão no pé de um cara que usava um salto finérrimo. Não teria sido nada - eu sempre vou de coturno nesses shows - mas nos desequilibramos e ele arranhou minha perna com o salto - primeira lição: não vou mais de saia! A dor passou no momento que ouvi The Caterpillar, com uma bateria bem Brasil! (Aliás, que baterista incrível... merece um post, mas enquanto isso pode-se ler algo sobre ele aqui)  
Foi só quando cheguei em casa, tirando o coturno e vendo o arranhão, que senti o que chamo de "dor acumulada".

Hoje, descobri no entanto, que incoerência é uma banda numa propaganda de refrigerantes; incoerência é justamente tudo o que combina entre si, mas que se expõe num canal equivocado.

Veja só as manchetes a seguir. A mim, parece que saíram da tela da Tv, num filme de humor de quinta muito do sarcástico:

Corpo de Inri Cristo é encontrado na Colômbia
(eu, particularmente, trocaria para 'Jesus morreu de novo')



Thor Batista promove rave com guerra de tomates em sua mansão
(ou 'playboy não perde a oportunidade de esfregar na sua cara que não precisa perder o salário fazendo salada na janta')


PM de São Paulo usa gás lacrimogênio e balas de borracha para separar cães no cio
(ou 'governador fica broxa e desconta na cachorrada', com a seguinte linha fina: 'governo aproveita falta do que fazer da polícia para realizar a ação')


Pastora Suzane Richthofen é nomeada presidente da Comissão de Seguridade Social e Família
(nada do que inventem superaria tanta incoerência numa mesma frase)


"You flicker and you're beautiful, you glow inside my head. You hold me hypnotized, I'm mesmerized... Your flames, the flames that kiss me dead"   (The Cure)

Em Tempo: Assim como ocorreu com a Profª Lucia Santaella, diversas pessoas também vieram até mim, tomando o cuidado de não me constrangerem, para me alertar sobre o conteúdo anedotal das notícias elencadas acima. E assim como ela afirmou, para mim é muito mais inacreditável que elas não sejam verdadeiras do que o contrário. 

" (...) depois de Calheiros e Feliciano, e outros mais, tudo se tornou crível neste país. Fato, ficção, humor, farsa, verdades e mentiras, tudo se misturou de tal maneira que indignar-se é a prova dos nove, pouco importa se fato ou fantasia. Principalmente porque o humor é uma forma de afiar a lâmina da realidade. Os tomates falam muito sobre o que tem sido calado da família Batista. Mesmo que a maluca fantasiada de pastora não tenha sido nomeada, não se pode esquecer que os irmãos Cravinhos (é esse o nome?) andam soltos por aí. Qualquer um de nós pode até tropeçar com eles na rua. Ou será que essa informação também é questão de humor?"

5 de abr de 2013

Wind of Change


É certo que a vida é um eterno morde-assopra. Ora rimos, ora choramos. Não é questão de dualidade, mas de uma transmutação consistente não linear e difusa de fluídos, de poder, de intentos. 

E assim mesmo, bem amplo e maximizado, para não determinar a interpretação de algo tão grandioso. Afinal, as "convicções são cárceres".

Mas há dias uma sensação de insegurança me consterna; como se um gama de arremedos me coagissem, intempestiva e invisivelmente. Uma sensação de estar fora do eixo, quase fisicamente, mas que ao tentar se endireitar, percebe-se que nada estava fora do lugar. Nada externo. 

Então, neste caso, só resta mesmo submergir. E procurar, no fundo, um motivo; "além do mito que limita o infinito; além do dia-a-dia que esvazia a fantasia".  

É público e notório que um fio condutor para este 'além', para este porão úmido e de luzes amarelas, é a torre. Por isso, imersa, reverso esse universo: deixo Carroll e a imagem de Arthur Rackham no limbo e trago à margem Verne, o primeiro autor que li, e que emerge no horizonte como um farol no fim do mundo.     

Mas esta torre é um falso norte: ela direciona ao topo, e a distância só pereniza a percepção de sua elevação. Por isso a escolha desta foto- que está no post - para dar a estas palavras que carrego um destino alvissareiro. Ela representa todos esses pontos de vista, numa simbiose tão imperceptível que apenas uma imagem poderia traduzir. 

"Aquele que luta com demônios deve acautelar-se para não tornar-se um também. Quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você". (Nietzsche)
--

"The lighthouse at the end of the world" foi feita por Steve Allsopp e concedida para uso ao Torre no Porão. 


My best regards to dear Steve, for rewarding me with this wondrous image. You gave "her" to the world and I´m spellbound! So, I hope you receive many good energies of life, just as I.

25 de mar de 2013

Video of the Month

Retomando uma iniciativa das antigas aqui no Porão e já desvirtuando-a, é claro, posto aqui, com toda a pompa que as notas metálicas industriais do Rammstein exigem, seus clipes novos. Era costume postar o vídeo da semana, mas estes que seguem merecem quatro semanas de silêncio.
                                                                                                                  *Com informações do Rock Noize

A música Mein Herz Brennt rendeu três versões diferentes de vídeos, duas versões de arranjo em um DVD novo, o Videos 1995-2012. Esta música, porém, não é nova; trata-se da faixa 1 do terceiro álbum do Rammstein: Mutter, de 2001. De lá, foram hits também Feuer Frei, Ich Will e Sonne (uma das minhas favoritas!).
Pohan, a notícia devia ser essa: os caras tão lançando um DVD com todos os clipes desde 1995! Mas não...    


A notícia é que o Rammstein está, cada dia mais, transformando seus clipes em enredos de Lars Von Trier. 

É tão notório que suas idéias ácidas, concupiscentes e deliciosamente amorais conseguem tomar forma visível, que para divulgar os clipes, a banda lançou um hot-site, o www.mein-herz-brennt.com

De cara, você se verá assistindo à versão "explícita" do clipe da música. Mas se você for um sujeito saudável, comece pela versão alternativa - essa, cujo player tá disponível aqui na postagem. E pare por aí. 

Clicando aqui você confere o clipe de Mein Herz Brennt em sua versão mais calma, no piano, e todo o tracklist do DVD que também terá versão em Blu-Ray, diversos making offs e contará com um livro de 56 páginas.

 **Essa postagem é, também, um agradecimento à indicação da Nyelschi e um retorno oficial à escrita portuguesa sem a porcaria do acordo que permanece adormecido até 2016.

14 de mar de 2013

Flame Heritage

Illustration: Odessa Sawyer
Dali corríamos, em torno das árvores que restavam
O ar, ainda úmido naquele canto, atingia-nos com efeito letárgico
Não nos importávamos
Tudo permanecia igual

Pelas paredes, ouvíamos o trottoir dos desamparados
Uma vibração reverberaba em redor
Naquela música dançávamos
Intocados pela pressão
Sim, nos era como música
Habitar, consciente, os últimos momentos

Minutos finais da existência do tempo
Era alento,

Inventar uma panaceia para sentir o vento

Abrimos as tampas
Logo cedemos ao desejo de ver
So far away
O brilho das chamas

Longe do madrigal que nos enevoava
Os gritos e gemidos irrompiam do oceano
Vertendo as películas que nos amalgamava
E a brisa que suave nos polinizava
De lufadas virulentas nos fez desengano


18 de fev de 2013

Rio aguador

Duas horas. Estranho a familiaridade do quarto. Volto à exata posição em que me encontrava; quem sabe assim, finalmente, adormecesse. Mas me sinto agitada o bastante pra divagar e densa o bastante pra permanecer na posição letéia.

Aguardo com agrado que a sofreguidão se apodere da garganta enquanto canto nosso mantra. Dona de mim, transformo-me em gota, e quedo por entre matões, displiscente e camuflada.  


Então me perco nas clarabóias do meu tormento.



29 de jan de 2013

Levinas

Imagem: Rogério Bessa

"Deus que vela sua face não é, pensamos, uma abstração de teólogo nem uma imagem de poeta. É a hora em que o indivíduo justo não encontra nenhum recurso exterior, em que nenhuma instituição o protege, em que a consolação da presença divina no sentimento religioso infantil se nega também, em que o indivíduo apenas pode triunfar em sua consciência, ou seja, necessariamente no sofrimento. A posição de vítimas em um mundo em desordem, ou seja, em um mundo onde o bem não chega a triunfar, é sofrimento. Ele [o sofrimento] revela um Deus que, renunciando a toda manifestação solícita, convoca à plena maturidade do homem responsável integralmente. Mas no mesmo instante, este Deus que vela sua face e abandona o justo à sua justiça sem triunfo — este Deus longínquo — vem do interior."

2 de jan de 2013

Out of me

Não é que eu encontre sentido escrevendo ou caminhando. Percebo-os – ambos os exercícios – paralelos, mas não rivais. Se um me leva ao mar e o outro a montanhas, não importa... mas sim o mesmo céu que os cobre, ignorado; o mesmo asfalto que absorve seus atropelados.
Acaricio estas teclas do mesmo modo a delibar a outra pele: sem expectativas e com olhos bem abertos à menor fenda de deleite momentâneo.
Não procuro mais me reafirmar em quartos conjugados ou paredes solitárias; nem em escovas de dente de cores opostas entrelaçadas, nem em pôsteres juvenis cheirando individualismo de guarda-roupas.
A verdade é que não há opostos, não há caminhos; não há céu, asfalto, nem destino. Se tenho mais um caractere aqui ou mais um passo lá, ao final nada freia o tempo. 
Vejo mais um pequeno risco púrpura sob minhas coxas; mais um desvio côncavo me acompanha as curvas. Elas, então, disformes, deformam-me e me transformam no que querem. Num não-eu que desvendo cotidianamente, tornando mais pueril os pequenos núcleos sensoriais, rodeados por marcas maliciosas de expressão.
E quanto mais busco descrevê-los, mais distante percebo-me deles: não estou em meu olhos, em meus dedos, em minha língua, em meus cabelos. 
Estou fora de mim. E é lá onde me encontro.