25 de abr de 2012

I Encontro Gaia

No próximo dia 27 de Maio, Paranapiacaba sediará o I Encontro Gaia.

Programação completa aqui
A escolha do local não poderia ter sido mais acertada, já que "Paraná" reúne diversas tribos e pessoas com nobres intenções, mesmo que seja a mais inocente delas: confraternizar-se. Lá já ocorre o famigerado Festival de Inverno, no mês de Julho, com diversos nomes da Música, além da também aclamada Convenção de Bruxas e Magos.

Embora tenham se projetado e se movimentado, as "irmandades" têm poucas oportunidades de se encontrar. Na verdade, as pessoas são cada vez mais independentes em seus ritos, por vários motivos: falta de tempo, constrangimento, individualismo. Portanto este, bem como os diversos encontros que ocorrerão em Maio, são belas chances de aprender a praticar fé e crenças de maneira rica e cheia de diversidade, como é a Grande Mãe.

Como observou Tania Gori, estudiosa de ocultismo e responsável pela Convenção em Paranapiacaba, o mês de maio tem um significado especial para o budismo, xamanismo, como foi para os celtas. Segundo ela, "
na religião Wicca esta data representa a união do Deus e da Deusa representando a fertilidade dos animais e a colheita do próximo ano".

7 de abr de 2012

O início, o fim e o meio

Indigesto, o filme sobre Raul, para quem o achava apenas um grande cantor, um símbolo da música popular brasileira. Para os fãs, surpreendente. Mesmo aqueles que o seguem há anos, que vão às passeatas em sua memória, em São Paulo; que vão na bagunça do cemitério Jardim da Saudade, no aniversário de sua morte, em Salvador. Nas duas horas e quinze de filme, a plateia riu – muito! -, suspirou e, ao final, terminou ainda mais confusa sobre a figura de Raul Seixas.

 Eu o considerava um contra-artista por falta de termos que o personificassem melhor, mas acredito que dentro das limitações que qualquer forma de expressão tenha, esta definição seja a mais próxima dele mesmo, ou de suas ações. Afinal, conhece-se uma árvore pelos seus frutos.
Prometendo não fazer nenhum spoiler, ou talvez uns poucos, diria que Walter Carvalho foi extremamente sensível, mas sem baitolagem. Ele penetrou fundo nas relações de Raul e esta foi sua linha editorial. Nem precisou de opinião, de tendência: pesquisar sobre o cara deu um rumo certeiro na produção. E este é um argumento ao qual quero me ater para dar rumo a estas humildes observações.

Quem viu o documentário, ou quem já ouviu as declarações de Paulo Coelho, sabe que Raul era um underground. Ele vivia cercado de gente, influenciado, mas era senhor de si. “O maior companheiro do Raul se chamava Raul Seixas”, afirmou Paulo no documentário, enquanto uma mosca pousava em seu braço. "Eu nunca vi mosca em Genebra!", constatou abismado. Por isso acho que ele era um desses sujeitos cujo destino é traçado nos primeiros anos de vida. Com 12 anos, ele tocava em um rock clube, fumava, enfrentava sutilmente a família e bebia. Bebia muito. Seu comportamento “destrutivo” era o grande motor de suas produções. Então, era escolher entre ser um velho arrependido de seus pecados, gagá, provavelmente um religioso desses teóricos, interrompendo o fluxo vertiginoso de sua criatividade, vivendo uma vida medíocre ao lado de Lena – mulher de muito boas intenções, mas uma chata – ou ser o Raul. Aqui entra o Marceleza.

Como admiradora do R´n´r e boa “fia de baiana”, não posso deixar de vibrar com as crias soteropolitanas. Claro que Raul foi o grande precursor do movimento no Nordeste, mas ele foi pro mundo. Quem permaneceu, anos depois, fazendo a manutenção, próxima do público, jorrando riffs de guitarra e ideias subversivas foi uma banda chamada Camisa de Vênus. E quando Marcelo Nova lança sua carreira solo com a Envergadura Moral, Raul está em um momento down da carreira. Ele tava na merda, mesmo.

E quem poderá desconfiar das intenções de um fã, de alguém que é capaz de afirmar que deve sua carreira a Raul? Lena. Ela e alguma parcela do público do Raul que não entendeu nada sobre a perenidade da vida; que vive presa às amarras da encarnação. Não fosse Marcelo, outro apareceria para levar Raul de volta aos palcos – a única coisa que ele amava mais do que tudo, mais do que as filhas, mais do que as companheiras, mais do que a própria vida. Marcelo deu um sopro renovador na vida de Raul, que em meio àquela loucura toda de internações seguidas, doenças, alcoolismo e separações, conseguiu ordenar as ideias de Raul para mais produções talentosas que nasceram desta parceria: Carpinteiro do Universo, Banquete de Lixo, Pastor João e a igreja invisível.
E quer mais certeza de uma vida vivida com integridade e em paz de espírito do que a forma da morte? Não é regra, mas privilégio um cara sedento como era, que buscou se conectar com a energia criadora de tudo que foi maneira: sacrificando animais, cantando, compondo, transando, gerando filhos, drogando-se, estudando (Direito, Psicologia, Filosofia, Ocultismo), morrer dormindo.
Saí tristonha, pelas cenas chocantes do fim no fim do documentário. Mas agradecida por poder desfrutar de sua genialidade.

5 de abr de 2012

Inner Truth

Quase me convenço de que a máxima gnóstica "anima semper scit" não é apenas uma fachada, dessas robustas e impenetráveis, comuns ao universo oculto. Com o tempo, e em determinado estágio, a busca pelo conhecimento em resposta às indagações mais intrínsecas da alma te fazem girar, correr, escorregar por degraus e cair no mesmo lugar. Mas é bem aqui, diante dos mesmos corredores, que a luz pode iluminar o canto mais inóspito do entendimento. Ou não.

Entre os mais versados psicanalistas, a inclinação à mitomania pode explicar e, por si só, dissolver a capacidade humana de atribuir poder, verdade, justiça, e tantos outros valores, a entidades espirituais. No entanto, mesmo o fundador da Psicologia analítica, o suíço Carl Gustav Jung, estabeleceu uma relação entre o estudo dos elementos constitutivos da mente e as personificações. Aliás, mais do que isso: Jung mostrou-se, publicamente, interessado na maneira como os místicos compreendiam o mundo. Em 1916, ele publicou  o livreto "Sete Sermões aos Mortos" - oriundo de uma experiência com espíritos que teriam intervido no mundo físico através de objetos. Assustando-se, Jung teria ouvido vozes dizendo-lhe "voltamos de Jerusalém, onde não encontramos o que buscávamos". Eventos estranhos a parte, o interessante é observar como o tom da narrativa muda neste texto, verossímil, impositivo. Não fosse atribuído e reconhecido por ele, jamais acreditaria ser de sua autoria.
Eis porque vos falo do mundo criado como uma porção do Pleroma, mas unicamente em sentido alegórico; pois o Pleroma não se divide em partes, por ser o nada. Somos também o Pleroma como um todo; visto que num aspecto figurativo o Pleroma é um ponto excessivamente pequeno, hipotético, quase inexistente em nós, sendo igualmente o firmamento ilimitado do cosmo à nossa volta. Por que então discorremos sobre o Pleroma, se ele é o todo e também o nada?

Outro evento histórico que evidenciou sua predileção pelo gnosticismo foi a aquisição do Codex Jung por seu Instituto. Embora criado numa tradição ortodoxa (seu pai era pastor luterano), Jung colaborou na tradução de parte do Nag Hammadi e considerou o gnosticismo uma importante ferramenta da "obtenção da plenitude da alma" (Stephan Hoeller). 

A versatilidade de Jung parece ser a grande responsável pela riqueza de sua obra. Além de notável estudioso, era artista plástico, desenhista, miniaturista e médium - para alguns, leia-se esquizofrênico, já que afirmou ouvir vozes e dialogar com elas, capacidade que sua mãe também possuía. Estes talentos foram conhecidos do público recentemente com a divulgação do Liber Novus ou Livro Vermelho, que foi escrito a mão detalhando suas viagens pelo inconsciente e descrevendo, também por desenhos, diversas imagens arquetípicas. Somo a essa versatilidade a própria dualidade que ele viveu, hesitando entre personalidades e entre sua emancipação e a subserviência ao tutor e mestre, Freud.

Trecho de "Jornada da Alma" - dualidade razão X emoção e a relação-conflito com Freud


Sua consternação aumentava à medida que suas ideias tornavam-se mais numerosas e autônomas, e nenhum de seus tratados pareceu diminuir sua angústia. E conforme se entregava aos devaneios de seus sonhos, menor era sua vontade de viver esta vida, tão vulgar e efêmera, como relata em sua autobiografia:

"Todas essas visões eram magníficas. Eu estava mergulhado, noite após noite, na mais pura beatitude, “no meio das imagens de toda a criação”. Pouco a pouco, os motivos se misturavam e empalideciam. Comumente as visões duravam aproximadamente uma hora, depois tornava a dormir e logo de manhã sentia: “De novo uma manhã cinzenta! Volta o mundo sem cor com seu sistema de alvéolos. Que estupidez! Que terrível loucura!”
No retorno de um de seus sonhos e já na velhice, em meio a doenças, Jung vai-se despojar parcialmente de suas teorias e demonstra encontrar na aceitação do destino e na intuição o inefável caminho do autoconhecimento.
"Também compreendi que devemos aceitar os pensamentos que se formam espontaneamente em nós como uma parte de nossa própria realidade e isso fora de qualquer juízo de valor. As categorias do verdadeiro e do falso certamente sempre existem, mas porque não são constrangedoras, ficam à margem. Porque a existência das idéias é mais importante do que seu julgamento subjetivo"