10 de out de 2011

Vergonha

 Se você é mulher ou um cara muito vaidoso ('carinhosamente' apelidado de metrossexual por esta sociedade substantivada), já deve ter-se visto no terrível dilema de procurar um salão de cabeleireiro. Uma tarefa tão simples, uns diriam, afinal em cada esquina há pelo menos um desses e alguma igreja evangélica. Mas não é só encontrar um salão. E sim "o" salão.
Com este nosso poder de escolha e com tanta variedade de produto, quando achamos um que nos desperte o interesse, geralmente estamos cheios de não-me-toques e com uma lista gigante de veleidades a serem cumpridas sob pena de não voltarmos nunca mais e ainda fazermos a caveira do lugar para as nossas amigas! 
Como disse Sartre: "minha liberdade se angustia de ser o fundamento sem fundamento dos valores".
Mas não é que eu achei o tal do salão perfeito? Que fala junto com você a cor preferida de tintura! Como aquele namorado de adolescência que jurávamos ser nosso grande amor, vem aquela mulher, calejada, experiente, e exprime em tons, cortes e cores os seus pensamentos e desejos mais intrínsecos! Essa mulher tinha mais vivência com estética do que o PSDB com terceirizações!
E como resposta a esta gratidão toda, meu inconsciente me pregou uma bela peça. Comentei o quanto seu cabelo era bonito, longo, e ela, uma negra linda, respondeu em tom de brincadeira: "Não olha muito senão cai".
Foi então que eu soltei a bela merda resposta: "Esquenta não, é inveja branca".

Depois de três ou quatro segundos de um silêncio constrangedor, ela, muito simpática e segura de sua identidade, disse: "Por que, branca é bom e preta é ruim, é?!" e sorriu me abraçando! Ela me abraçou!!!
Que vergonha! Eu mergulhei naqueles braços com os olhos marejados! Lembrei-me de abraçar a minha avó, negra, esposa de um descendente árabe, que já havia sido alvo de tanto preconceito e senti vergonha de mim mesma.
Percebi que nosso inconsciente está comprometido com um imaginário egoísta e racista. O inconsciente do Brasil que, como bem lembraram Silas Nogueira e Dennis de Oliveira no livro "Mídia, Cultura e Violência", vive sob o falso ideal de porto seguro de todas as nações, de destino de paz, mas que resvala na intolerância muda, sutil.
Após o constrangimento, que foi agravado por um belo atendimento, decidi voltar. Voltar àquele lugar que pelo visto tem muito mais a me ensinar do que as tendências para o Verão 2012.  

2 comentários:

  1. já passei por algo muito parecido. muita vergonha, mas acho que isso serve pra gente se liga um pouco sobre o que a gente realmente pensa ( ou somos ensinados a pensar ) não que eu o você sejamos racistas.
    amo seu blog
    beijos.

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  2. Sem dúvida, Anabelly! São situações que nos fazem repensar o (in)consciente coletivo. Obrigada e seja benvinda à Torre.

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Éam?!?