08/10/2014

Alguns versos de sofreguidão

Como aprendiz do teu amor e carente da tua presença, 
me sinto abrigada por tuas palavras; 
e como objeto de sua devoção, sinto constrangimento e esperança
de que você me encontre em você dissolvida, diluída de mim,
sem as impurezas que te infeccionam.


07/10/2014

Music of the day

"versos meus
me são tão caros
que por costume
prefiro calá-los
à superfície
a poesia
desprovida de harmonia
deita palavras estranhas
na pena simulada
computador
as falsas luzes ardem
elétricas
iluminando
idéias vãs
enebriando
as mentes
dos novos poetas
que faltam à paisagem
que jejuam da benção solar
e a natureza
órfã de contemplação
agoniza
e agita
com seus ventos
e tremores
[ignis natura renovatur integram]
arma-te de teus versos e vem
que a alma ardente
da poesia
renova e reluz
arredia
rebelde
ao gosto mundano
de sabores azedos
profanos
inférteis
por natureza
castrados na raiz
essência"
Fúria Marina, Grupo Voz

20/06/2014

She run among the train

Um barbante preso em laço, parafusos n'areia, teu corpo inteiro no meu abraço.
Cortante como a morte, inconcluso como o amor, incerto como a sorte.
Amalgamada, estavas naquele frame quase imperceptível entre a paisagem e a correnteza;
Na beleza da obstinada procura pela definição aporismada.



10/04/2014

Mosaico

Começo na metade da nossa história. Nesse presente, eu te conduzi até o sol ardido de uma tarde gelada. Sua tosse me causava uma estranha e exagerada preocupação. A cada gole de ar desesperado, eu sentia como se meus nervos fossem cordas dedilhadas vigorosamente por um violonista. Eu lhe dava meu sorriso, mas meus olhos não podiam evitar a expectativa apreensiva de seu próximo gesto. E como sempre, surpreendentemente previsível, seu sorriso inteiro me desarma.


Vejo as pupilas dos teus olhos de amêndoas se dilatarem ao mirarem meu rosto. Como num caleidoscópio, reconheço as cores da aurora boreal refletidas nos finos fios dos teus cabelos negros. Eu te toco com o respeito de quem tutela algo que não lhe pertence, mas te sinto, não minto, sem arrepios: sua pele é uma extensão  'metaformoseada' da minha.
Esse não poema é como os planos que faço para o seu futuro: cheio de cuidadosa atenção e afeto, mas simples de coração.


Do alto da minha autoridade sobre você, eu preparo em meu caldeirão folhas de hera e infusões de Dill e Junípero, para um sorriso pueril e uma conduta de liberdade. Eu não sei o que teremos adiante, mas sei o que não quero; e pretensamente sei que um poeta precisa de amarguras para escrever, mas até elas eu quero passar com você. Um amigo já avisou: "elas passarão", ' nós passarinho'.