30 de ago de 2016

Dark Forest

Teu coração, confiado no meu esconderijo
Guardado sob aquela velha canção
Caminho em densa mata, não me aflijo
Meus pés afundam em mangue, meus olhos escuridão

Eu sou Perséfone, em primavera e inverno
Eu vou sem fio de Ariadne para voltar
Eu tenho Oxum e Exumarê, nos rios adentro
Eu moro Olimpo e Hades, ninguém me pode auscultar

As flechas partem ágeis como serpentes voadoras
Ascendem escudos de ipês e baobás 

A solidão, presença inóspita, enorme e densa
Traço o círculo: Ceridwen vem me visitar


Eu sou Perséfone, em primavera e inverno
Eu vou sem fio de Ariadne para voltar
Eu tenho Oxum e Exumarê, nos rios adentro
Eu moro Olimpo e Hades, ninguém me pode auscultar

A melodia das mulheres ouço distante
O ruído do tear na cadência dos meus passos
Montanhas e vales, espalhados, amantes
É Beltane, dança, fogo, e eu regresso



Michelle Izzard Fine Art

This post is more than words and an illustration. This post was a joint effort of people connected through cyberspace and that finalized its art inspired by a matristic breath.
 Merry meet, Michelle

A gallery of Michelle's work can be found here: 
http://www.outsidein.org.uk/Michelle-Izzard and Facebook: https://www.facebook.com/michelleizzardfineart/

10 de ago de 2016

Ilex per fumum

Eu construo um poema que te retrate, uma música que agrade, uma novidade no meu baú de referências ultrapassadas. 

Eu realmente sinto-me gerando uma vida com esse sopro que aventura emaranhar meus cabelos. 
And what Difference Does It Make?
All men have secrets and here is mine
So let it be known
For we have been through hell and high tide
I can surely rely on you
E depois de tantas sensações eu vejo que o tempo passou. A cina é só um texto. Eu não encontro nada mais expressivo que teu olhar de enseada. 
Oh, he said he'd cure your ills
But he didn't and he never will
Oh, save your life
Because you've only got one

15 de nov de 2015

I'll be what I am

Passando o tempo, foi possível perceber o quanto me perdi.
Enquanto faziam jogos sujos pelas minhas costas.
Eu me sentia cada vez mais assustado com o tamanho desta sombra ao meu lado.
Lembro-me de enxergar assim, tão distante de mim.
Hoje acordo na certeza sem fim que estavam contra mim.
Eu serei o que sou, com meus erros e acertos. Pois eu me importo pra mim.

Será mais fácil enxergar assim, nada mais será contra mim.
Foi difícil encontrar uma razão, noites de jogos e escuridão.
Quando olhei para céu, não encontrei nada; 
estava sem brilho, tamanha imensidão.
Acredite... Queira você, sim ou não:
Não havia estrelas no céu, me tornava invisível na multidão.

De tanto tomar Gyn, me deitei no chão e fiquei nessa escuridão.
Mas agora nada será contra mim, me sentia assim.
Não havia guardas, muralhas e escorpiões.
Os portões dos porões não se fechavam, nada mais era contra mim,
quando cruzei a fronteira da razão enlouquecido da inquietação.

Levantei-me do chão, não haverá escuridão, nada queria enxergar.
Poderia assim encontrar uma razão.
Eu serei o que sou até o amanhecer.
Vou voltar a ver o que quer que seja... eu não procurei, nem fui encontrar.
Sou a sombra da luz que vem brilhar.
O botão da bomba fatal, fiz deste inferno meu quintal.
Vivo na dor de quem nunca sentiu, no espaço de alguém que nunca ocupou.
Sei que serei assim, o que sempre quis: uma sombra na escuridão, invisível à multidão.

(Lobo, 2015)


*Este poema foi escrito por um leitor do blog Torre no Porão. Lobo é um pseudônimo.

Se você também deseja publicar, envie seu texto para tabs.bolachas@gmail.com. 

17 de ago de 2015

σοφία ‎

Recosto você em meus braços e o sono rapidamente me transporta do teu lado. Não tenho tempo de experimentar a sensação de culpa, quando encaro com surpresa meu antigo quarto. Vejo sua pele se amalgamar à minha. Caminho segura naqueles conhecidos passos, mas experimentando um estranho ineditismo. Na verdade, reconheço com clareza aguda sua velha presença: no pôster atrás da porta, na vista do Banespa pela janela, no som metálico dos trilhos do trem. 
Você era o batom vermelho do sábado e as polainas de lã do domingo. Na apreensão do carona da moto, na mala feita. Você era o cinema da quarta-feira. Estava lá, no portão fechando, no borrão das árvores na estrada. Você era a lágrima de saudades da minha vó. A parede de tijolo, o cômodo vazio e o fio de luz do sol que insistia em assistir nosso sono. Você era o amor feito de madrugada e cada laranja cortada pro Heitor. 
Aos poucos você se tornou o conjunto de estrias na minha barriga, a dor nos seios e uma alegria imediata quando se mexia. Você foi aquele medo de perder o que eu sequer tinha, e as inúmeras leituras no metrô enquanto eu encenava que tudo corria bem. Você é aquele grito que irrompe de madrugada e a cada dia que passa você se descola de mim pra ser esse amanhã desconhecido. 
Eu só sei que você tem esse sorriso que dissipa o meu cansaço. Não tem nada que eu te diria, a não ser que eu adoro seu nome.