17 de ago de 2015

σοφία ‎

Recosto você em meus braços e o sono rapidamente me transporta do teu lado. Não tenho tempo de experimentar a sensação de culpa, quando encaro com surpresa meu antigo quarto. Vejo sua pele se amalgamar à minha. Caminho segura naqueles conhecidos passos, mas experimentando um estranho ineditismo. Na verdade, reconheço com clareza aguda sua velha presença: no pôster atrás da porta, na vista do Banespa pela janela, no som metálico dos trilhos do trem. 
Você era o batom vermelho do sábado e as polainas de lã do domingo. Na apreensão do carona da moto, na mala feita. Você era o cinema da quarta-feira. Estava lá, no portão fechando, no borrão das árvores na estrada. Você era a lágrima de saudades da minha vó. A parede de tijolo, o cômodo vazio e o fio de luz do sol que insistia em assistir nosso sono. Você era o amor feito de madrugada e cada laranja cortada pro Heitor. 
Aos poucos você se tornou o conjunto de estrias na minha barriga, a dor nos seios e uma alegria imediata quando se mexia. Você foi aquele medo de perder o que eu sequer tinha, e as inúmeras leituras no metrô enquanto eu encenava que tudo corria bem. Você é aquele grito que irrompe de madrugada e a cada dia que passa você se descola de mim pra ser esse amanhã desconhecido. 
Eu só sei que você tem esse sorriso que dissipa o meu cansaço. Não tem nada que eu te diria, a não ser que eu adoro seu nome. 

27 de mai de 2015

Trama

Todas as páginas têm seu cheiro, e para todas as letras a tua miopia.
Em cada esquina o teu número, e em todos os prédios aquela cor predomina.
No mantra o teu nome, e na palma da minha mão tua guia.

Não leio mais, não conto mais, não rezo mais.


25 de mar de 2015

Das Nachtleben

O encontro

É uma noite escura e o vento uiva distante
Ao longe, no fim da rua, ele vê uma silhueta feminina
Algo inexplicável, como uma curiosidade absurda, o faz se aproximar
Feito destino, eventualmente eles deveriam se encontrar

Ele finalmente se aproxima e a vê: alva como neve, cabelos negros como petróleo
Repentinamente ela o encara. Um olhar frio, sem expressão
A sensação que ele tem é de que ela lê sua alma
E realmente ela o faz, e aquilo tudo é amedrontador

Apesar do horror, ele não consegue se mover 
Tudo o que pode fazer é manter o olhar fixo no fino rosto dela
Quase que como sob encanto, ele dá um passo em direção a ela

O abraço

Suas mãos tocam as costas pálidas e frias dela por baixo da blusa
Ela esboça um sorriso e o aperta com braços desproporcionalmente fortes
Ele sente como se suas costas fossem partir ao meio
O suor frio lhe percorre o corpo
Seu coração dispara quando ela aproxima seu rosto do dele

O beijo

Ela agora definitivamente sorri
Os lábios vermelhos contrastando com os dentes brancos
Ele não espera quando seus lábios são tocados pelos dela
Como uma presa indefesa, ele só responde aos estímulos da predadora

Os lábios frios dela lhe causam pavor
E ainda assim ele não pode resistir
O beijo cessa, ela deita levemente o pescoço dele para o lado esquerdo
E o sorriso dela se torna malicioso...

A não-morte

Há algo a mais no sorriso dela desta vez
Enormes caninos surgiram de lugar nenhum
Ele está desesperado, pois já sabe o que vem depois
Uma só mordida! Um longo e doloroso grito agoniante e uma dor lancinante

Ele sente todo seu sangue se esvaindo
A visão fica turva, embaralhada
De repente, tudo escurece
A morte havia chegado?

A fome

(Corvus, 2015)

*Este poema foi escrito por um leitor do blog Torre no PorãoCorvus é um pseudônimo.
Se você também deseja publicar, envie seu texto para tabs.bolachas@gmail.com. 

11 de fev de 2015

Menstruação, amamentação e poder

É muito fácil ceder às pressões tácitas de uma ingênua conversa feminina sobre mulheres. Logo você se vê reduzindo menstruação a TPM, amamentação à flacidez dos seios e todo o poder da sexualidade materna a um sem fim de reclamações, porque não quer parecer a louca do metrô com o dedo em riste pregando a libertação do sagrado feminino.



Mas essas conversas são tão importantes quanto um olhar menos hostil e mais franco e frequente sobre o próprio corpo. "O corpo, esse real que não passa pelo simbólico e que, portanto, acaba escapando até do simbólico das novas tecnologias, tornou-se o único lugar onde ainda se pode articular alguma coisa, inclusive uma ética (...) é como se o corpo tivesse virado o último reduto e a resistência.” (Atrator Estranho - Tempo Real, Espaço Virtual, p. 32)



Esse exercício tá extremamente ligado à intimidade que se pode desenvolver com os filhos - pra quem é mãe - e com o eu - pra quem não é [apesar que toda mulher é mãe, mesmo aquelas que não tiveram filhos]. 

Além disso, esse exercício de empoderamento da mulher sobre o que lhe pertence - seu corpo - também é muito didático para quem está ao redor. Lembro-me de amamentar minha filha em seus primeiros meses de vida e meu filho de coração e criação dizer "Tá, levanta o sutiã, tá aparecendo seu peito". Depois de ver a cena repetidas vezes e de conversas inúmeras, ele entende que aquele momento, apesar de íntimo e belo, é normal. Qual a relação dessa vivência com a postura que ele terá, ao longo de sua vida, com as mulheres à sua volta? Espero e acredito que a melhor, mais respeitosa e gentil possível.