30 de nov de 2011

Ando só

Magritte
Rodeado de móveis, acorda, 'inda com a mirada amorável da senhora do sonho e somatiza na boca do estômago o amargo olhar felino de Salém, preto dos olhos esmeralda, que dorme ao lado de sua cama. 
Ziguezagueando, retira displicente do canto dos olhos as poucas evidências de sua passagem pelo país das fadas. E então, rodeado de luz, choca de água gelada o rosto. 
Esconde a nudez, encosta os lábios nos dela e sai, rodeado de expectativas a atender. No trem, rodeado de possiblidades, salta no mesmo lugar, e lá, rodeado de gente, rodeia-se de fios sonoros que o imunizam dos acasos.
No fim da tarde, passa pela praça favorita de conhecidos, mas continua para seu lugar escondido. De frente para a parede desenhada pela sujeira e laureada por espelhos, vê um olho, um umbigo, um nariz, mas não vê ninguém. 

16 de nov de 2011

Vale das Rosas

Dizem que as rosas são premonições de morte. Comigo não foi tão drástico, mas eu deveria ter-me lembrado desta sabedoria popular para me precaver. 
No sábado deixei tudo ajeitado e limpo. Casa fechada tem de estar limpa! E levei as crias para a sogra cuidar, enquanto eu aproveitaria o único feriado prolongado do ano que consegui planejar uma viagem. A ideia era ficar livre da rotina, descansando a mente sem nenhuma preocupação. Nem carro levei. 
Após uma viagem cansativa, mas cheia de expectativa, cheguei em Poços de Caldas, cidade turística do sul de Minas Gerais, onde foram descobertos poços de águas térmicas e sulfurosas, consideradas curativas no século XIX. 
Esses detalhes que compõem a história da cidade foram justamente a minha rosa. Passei semanas lendo sobre isto e fazendo roteiros, enquanto devia ter usado meu faro para desconfiar do hotel Vale das Rosas, onde me hospedaria. 
Não vi em nenhum site, nem no da Prefeitura de Poços, a recomendação deste hotel. E por ter comprado no Click On, confiei cegamente naquele pequeno espinho que se instalava sorrateiro em minhas mãos. 
Stresses à parte com o centro da cidade, que não tem táxi nem, sequer, um boteco aberto aos domingos, entrei em um ônibus que me levaria ao hotel. Me contentei com um pacote de Torcida de pimenta mexicana até, finalmente, poder traçar um prato da famosa culinária mineira! O cobrador acenou e eu, estranhando o caminho, fechei rapidamente o pacote de salgadinho e fui até ele. "É aqui, moça!", disse rindo. E eu, perplexa com a fachada do lugar, desci do circular Pq. Pinheiros.


Eu estava me sentindo em plena Rodovia Raposo Tavares, só que piorada! Além do hotel, havia um posto de gasolina, quatro motéis e alguns borracheiros! Igonarando o toldo descampado e os pisos quebrados da escada, entrei disposta a permanecer lá, desfrutando da infraestrutura do local e do almoço que estavas prestes a abocanhar.
Nessa piadinha de mal gosto, fui atendida por um senhor que, com o devido respeito aos do ramo, parecia um agente funerário, com um ar lúgubre e um terno preto.
Preenchi tudo rapidamente e logo perguntei se poderia ser servida de um prato de feijão com arroz. "Aqui nóis num serve almoço não!", disse o homem, pronto para me mostrar as instalações.
Ainda com os olhos marejados de fome, entrei no quarto chutando centopeias e formigas e vi uma cama redonda (ui!) sem lençol, uma TV queimada e nenhum frigobar. Não conseguia falar ao homem da minha decepção pois logo desbundei a espirrar, com aquele terrível cheiro de mofo. Sob o efeito da fome e do cansaço, ignorei tudo isso e pedi por obséquio que me dessem uma solução para a fome! Eu já estava comendo o saco do Torcida! "Óia, moça, cê ocê quisé pode buscar umas comida no mercado, pertin, daqui uns 300 metros, ou a sra. pode esperá saí o armoço dos funcionário, que eu te dou um bucadin".
Nesta hora foi-se a fome, o cansaço, as expectativas e só ficou a raiva e uma certa compaixão pela boa vontade do tiozinho.
Chorando de decepção, peguei o circular de volta ao centro, e depois à Rodoviária e finalmente à minha São Paulo.
Bem ou mal, aqui tem Gato que Ri, mas também tem trailer de lanche. O que você puder pagar, tem pra você. E apesar da decepção de concluir que na vida do pobre Deus dá a farinha mas o diabo carrega o saco,
aconcheguei-me à janela do metrô, eu e minha mala, comendo um saboroso pão de queijo paulista.

11 de nov de 2011

"Web of one"

Na rapidez frenética que o mundo disse que a informação deve rolar, rolam as letras, rolam os critérios, roll the bones. E rolam também os conceitos do mecanismo que tornou o mundo inteiro homogêneo, e fez com que a própria ideia de distância, inatingibilidade e curiosidade pelo 'outro', pelo novo, deslizasse para a indiferença e para uma nova categoria de "ocultismo digital".

Este vídeo (que infelizmente não consegui colocar o player) mostra como os filtros da web - especialmente da Google e Facebook - restringem nossa pluralidade, intencionalmente ou não.


"No underground, no mainstream, todo mundo é moderno, todo mundo é eterno, como um relógio antigo" (H. G.)

8 de nov de 2011

Θήτα




Dos verdes pastos bucólicos à selva de pedra
Da mais infame putaria proferida ao pé do ouvido até o agonizante gemido de dor

Meus versos são teus
Todas as minhas virtudes e pecados são teus

Meu amor mais devoto e meu ódio mais arraigado
A engrenagem do meu subsistema e a minha brisa mais louca

São teus
Todas as minhas virtudes e pecados são teus

O beijo que procuro em outros lábios e a minha solidão altista
Das vicissitudes e predileções até minha submissão

Meus versos são teus
Todas as minhas virtudes e pecados são teus

1 de nov de 2011

Under pressure

Gosto de ler sobre assuntos que não domino; sobre os quais nunca me debrucei ou estudei antes. E enquanto perpasso os olhos sobre cada letra, um anagrama vai-se formando em minha mente. É aí que faço meus paralelos.

Hoje li sobre um assunto que exige conhecimento técnico para formação de uma opinião mais assertiva: a construção da usina de Belo Monte. E mal digeri a entrevista da Elaine Brum com o Prof. Célio Bermann, já comecei a me questionar sobre a atuação da PM no campus da USP, na capital.

Foto: G1
Não se sabe, de fato, o que gerou o tumulto na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), mas sabe-se que a Polícia tentou impedir um aluno de usar um carro de som. Ao ouvir deste aluno que só mexeriam em seu carro mediante mandato judicial, a Polícia teria recuado. Momentos depois, três estudantes de Geografia que estavam fumando maconha no campus foram detidos. Este ato, somado à postura truculenta dos policiais, despontou como uma provocação aos alunos, que, indignados, tomaram o prédio da administração da FFLCH e ameaçam permanecer lá até a saída do atual reitor, João Grandino Rodas, e da PM.

Uma outra constatação foi a pixação do prédio da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) após a criação de um grupo no Facebook aprovando a atuação da PM no campus.

Saindo do Facebook, voltei à entrevista sobre Belo Monte, na revista Época; sobre como nos enredam num discurso liberal, repleto de mensagens subliminares - como a própria jornalista propôs no artigo -, vendendo-nos uma bomba em forma de benefício. Na entrevista, Bermann fala de sua experiência como assessor do governo e sobre o superfaturamento da obra, cujo mote não seria em nada energético, mas na área da construção civil.

Foto: AFP
Para dar tempo de processar as informações, olho pela janela e vejo uma pequena área de mata rasteira. Lembrei-me da região paraguaia do Chacco, e então de Itaipu. Nesta ocasião, o Brasil pagou sua parte à vista pelo acordo e ganhou um inquilino até 2022 2023, quando termina a dívida do Paraguai, financiada pelo BNDES. No livro, Ressentimentos de uma Guerra, um professor me relatou que passou toda a sua adolescência no Paraguai à luz de velas.  

E então chegamos, finalmente à Kafka (Oi!?). E me pergunto: será que não estamos nos transformando em algo indefinível por nós mas muito bem monitorado por altos interesses? Não estaríamos brigando por nossos direitos numa luta que já tem fim definido? Não estará nosso grito sufocado pela incapacidade de chegar a um consenso com o outro? E pior: vamos nos conformar a situações a ponto de nem questionarmos mais quem somos e o que queremos ser?


Pode parecer genérico, mas para todos os problemas - até mesmo para o de Gregor Samsa! - eu encontro uma mesma solução: Diálogo. É só por meio dele que as opiniões podem ser ouvidas e as ações enriquecidas. É ele que pode aumentar as expectativas do otimista e minimizar as frustrações do pessimista.

Diálogo!