21 de out de 2011

Ilusão de ótica


"Tire as mãos de mim, me dê a sua mão" (H. G.)


Alvaro Tapia Hidalgo


17 de out de 2011

A ferro e fogo

No mar da modernidade líquida, eles navegam, de pé na proa; rindo dos monstros marinhos, rindo da escuridão. "Seus otários, nós passamos por isso", pensavam, escondendo sob as franjas molhadas seus Ajnas.
Sua comunicação, como nos demais navios, era gerada com interrupções de vento, vicissitudes de água, rigor de madeira. Mas seus olhares traspassavam os ponteiros.
Enquanto a conexão entre os marujos era feita da forma mais rudimentar, entre eles o pensamento eclodia sonoro na mente, mas leve como a brisa da enseada.
"Todos a bordo!, o comandante gritou". Suspenderam a âncora e iniciaram a viagem. Diferente do torpor comum, sentiam calma e um certo cansaço. Cada movimento era, na verdade, uma futilidade para eles. Já fizeram-nos tantas vezes. E lembravam-se.

De todos as palavras, gostos e gestos, apenas a saudade de um abraço que nunca deram apertava-lhes o peito. E então sentiam sua humanidade.
Com dedos firmes faziam seu ofício. Com apreço, reconheciam céu e mar, com todas as suas pessoas, suas complexidades. Mas seguiam, juntos, em mais esta era, pelo nobre caminho... do meio.


 

10 de out de 2011

Vergonha

 Se você é mulher ou um cara muito vaidoso ('carinhosamente' apelidado de metrossexual por esta sociedade substantivada), já deve ter-se visto no terrível dilema de procurar um salão de cabeleireiro. Uma tarefa tão simples, uns diriam, afinal em cada esquina há pelo menos um desses e alguma igreja evangélica. Mas não é só encontrar um salão. E sim "o" salão.
Com este nosso poder de escolha e com tanta variedade de produto, quando achamos um que nos desperte o interesse, geralmente estamos cheios de não-me-toques e com uma lista gigante de veleidades a serem cumpridas sob pena de não voltarmos nunca mais e ainda fazermos a caveira do lugar para as nossas amigas! 
Como disse Sartre: "minha liberdade se angustia de ser o fundamento sem fundamento dos valores".
Mas não é que eu achei o tal do salão perfeito? Que fala junto com você a cor preferida de tintura! Como aquele namorado de adolescência que jurávamos ser nosso grande amor, vem aquela mulher, calejada, experiente, e exprime em tons, cortes e cores os seus pensamentos e desejos mais intrínsecos! Essa mulher tinha mais vivência com estética do que o PSDB com terceirizações!
E como resposta a esta gratidão toda, meu inconsciente me pregou uma bela peça. Comentei o quanto seu cabelo era bonito, longo, e ela, uma negra linda, respondeu em tom de brincadeira: "Não olha muito senão cai".
Foi então que eu soltei a bela merda resposta: "Esquenta não, é inveja branca".

Depois de três ou quatro segundos de um silêncio constrangedor, ela, muito simpática e segura de sua identidade, disse: "Por que, branca é bom e preta é ruim, é?!" e sorriu me abraçando! Ela me abraçou!!!
Que vergonha! Eu mergulhei naqueles braços com os olhos marejados! Lembrei-me de abraçar a minha avó, negra, esposa de um descendente árabe, que já havia sido alvo de tanto preconceito e senti vergonha de mim mesma.
Percebi que nosso inconsciente está comprometido com um imaginário egoísta e racista. O inconsciente do Brasil que, como bem lembraram Silas Nogueira e Dennis de Oliveira no livro "Mídia, Cultura e Violência", vive sob o falso ideal de porto seguro de todas as nações, de destino de paz, mas que resvala na intolerância muda, sutil.
Após o constrangimento, que foi agravado por um belo atendimento, decidi voltar. Voltar àquele lugar que pelo visto tem muito mais a me ensinar do que as tendências para o Verão 2012.  

3 de out de 2011

Someone's Music Echo

Deixou-na ao som de sua música favorita e partiu.



Prendendo a respiração, ela ouviu o som dos passos do salto quadrado da bota e do couro da jaqueta sibilando. Contou os 4 segundos que a porta da casa levava para abrir e ranger, fechando. Suspirou.
Via, da janela, meio de soslaio, à sombra da cortina, quando entrou no carro. Ainda presa a ela, sentiu o corpo vibrar quando ligou o carro, como se estivesse no carona.
E por força do hábito e do vislumbre, tirou os sapatos para esticar os pés sobre o painel. Olhou para baixo e vendo o piso que escolheram juntas noutrora, chorou. Chorou sem poder levantar a cabeça, pesada.
Sentiu no peito a dor se transformando lenta e intensamente em um riso incontrolável, insano! Conforme a música caminhava para o refrão, louca e despindo-se, teve a impressão de uma agulha tatuando em seu peito cada letra.
Achou-se patética pois sempre a criticava por aquela letra pouca, superficial. Mas agora tinha a melodia gravada, como se fosse dela.
Lembrou-se de Wilde, a quem tanto mencionou. Como uma profecia, percebia que não era mais dona de si; que "suas qualidades não eram verdadeiras". Refletiu sobre a imoralidade da influência, e chegou à conclusão de que aquela tatuagem lhe daria coragem de prosseguir.
Com o sabor da vaidade na boca e o suco espesso da vingança a escorrer, decidiu passar adiante este exercício empolgante: ser ela mesma e a outros corromper.