24 de ago de 2011

Metal for Africa

Que as grandes bandas e artistas pop fazem, vez ou outra, um barulho pra ajudar quem precisa você já sabia. Mas três bandas covers brasileiras de metal, compostas por pessoas como eu ou você fazendo um evento para arrecadar mantimentos aos africanos que estão morrendo com a seca, aposto que nunca viu.

De acordo com minha grande amiga Géssica Rocha - vocalista da Banda Arvak, autora do blog Brainstorm e dona dum coração que vai até a Finlândia, literalmente! - a ideia do evento foi colaborativa, e envolve também as demais bandas que se apresentarão.

Divulgue o convite e procure esta baixinha lá, que estará pululando muito em frente ao palco!!

 

22 de ago de 2011

Interferência no Porão

                                              
                                                                                         Jack Vettriano


À meia luz, o cigarro se apaga no ritmo da vela. E na janela, o vento bate e grita fino. Um violino toca longe uma canção que aos poucos cala a voz da guitarra. Bethânia fala...


"Eu vou te contar que você não me conhece,
e eu tenho que gritar isso porque você está surdo e não me ouve.
A sedução me escraviza a você.
Ao fim de tudo você permanece comigo mas preso ao que eu criei,
e não a mim.

E quanto mais falo sobre a verdade inteira, um abismo maior nos separa.
Você não tem um nome, eu tenho.
Você é um rosto na multidão e eu sou o centro das atenções.

Mas a mentira da aparencia do que eu sou,
e a mentira da aparencia do que você é.
Porque eu,
eu não sou o meu nome,
e você não é ninguém.

O jogo perigoso que eu pratico aqui,
ele busca chegar ao limite possível de aproximação,
através da aceitação da distância e do reconhecimento dela.

Entre eu e você existe a noticia que nos separa.
Eu quero que você me veja nu;
eu me dispo da noticia.
E a minha nudez parada
te denuncia e te espelha.
Eu me delato,
tu me relatas;
eu nos acuso e confesso por nós.
Assim me livro das palavras com as quais
você me veste".

(Fauzi Arap)

Esse poema de Arap me trouxe à memória os aforismos de Jung, e sua teoria sobre como o ato de amar é uma experiência de morte. E morte inexorável: ou mata a personalidade daquele cujo sentimento não deixou assumir sua verdadeira natureza e personalidade, ou mata o exercício de amar, do relacionamento amoroso, pois que o orgulho de um ego inflamado não permitiu descobrir-se no outro nem influenciar-se.

"Onde o amor governa, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, falta amor. Um é a sombra do outro." - em Psicologia do Inconsciente.

16 de ago de 2011

O queijo e os vermes

O historiador Carlo Ginzburg conta a história de uma figura interessante no livro "O queijo e os vermes". Menocchio é um moleiro do século XVI que propagava idéias muito a frente de seu tempo. Embora fosse de origem simples, exprimia no seu cotidiano uma cosmogonia eloqüente, considerada herege para a época: "... Tudo era um caos, isto é, terra, ar, fogo, e água juntos; e de todo aquele volume se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos...", sugerindo que o mundo teria sido originado da putrefação.
Anterior a Lutero, Menocchio enfrentava a comunidade submissa à Igreja e também os padre e párocos, que o questionaram muitas vezes sobre seu modo intrigante de encarar a religião e a prática da fé: "Os padres nos querem debaixo de seus pés e fazem de tudo para nos manter quietos, mas eles ficam sempre bem (...) eu conheço a D´us melhor do que eles". E ainda: "Gostaria que se acreditasse na majestade de D´us, que fôssemos homens de bem e que se fizesse como Jesus Cristo recomendou, respondendo àqueles judeus que lhe pergutaram que lei se deveria seguir. Ele respondeu: 'Amar a D´us e ao próximo'." 

É um maravilhoso precedente de indignação ao recebimento passivo da cultura, imposta pelas classes dominantes.

15 de ago de 2011

A menina que devia ficar nas nuvens

 

  
A noite de sábado foi coroada por uma deliciosa brisa de verão petulante neste mês de Agosto. As pernas das moças estavam de fora e as bebidas geladas estavam vendendo bem. O Theatro Municipal de São Paulo, agora reformado, conseguiu ficar menor, aconchegando bem as pessoas que se acomodaram com olhares curiosos em todos os assentos do local. Estava, de fato, lotado.

Tanta expectativa logo arrefeceu quando o espetáculo começou. A menina das nuvens, de Villa-Lobos, é uma daquelas obras que se pode chamar "específicas". Eu gosto deste termo para definir leituras ou músicas excêntricas. E aí outro eufemismo. A verdade é que ele mesmo, quando a compôs, a definiu como "aventura musical". Acho que, desta forma, se resguardou das críticas.

O cenário era fabuloso, composto por nuvens e luas móveis onde os cantores, às vezes, sentavam-se e eram levados - e por falar nos cantores, muito competentes e experientes! -; a Orquestra Sinfônica Municipal, o coral e o maestro, Roberto Duarte, também conhecidos do público, fizeram um belo acompanhamento, que infelizmente não conseguiu salvar o espetáculo. Eles tentaram, pobrezinhos. Mas não rolou.

A apresentação se arrastou, acredito que por conta da musicalidade "excêntrica" e desencontrada entre a harmonia da orquestra e a melodia das vozes. Os cantores atuaram muito bem, mas o segundo ato conseguiu a participação do público, com seus "Zzzzz´s" quase em uníssono.

Para salvar, e ainda bem que no último ato, o diálogo - diálogo! outra chatice cansativa da aventura musical do Villa - entre a Menina Cacilda e a Lua foi muito rico musicalmente e visualmente. As pessoas acordaram.

E para finalizar, o trecho que deveria, ou poderia, se quisesse, sensibilizar o público apelando para o senso comum, não convenceu ninguém. Quando a Menina e o Príncipe se encontram, há tanto romance quanto entre Jennifer Aniston e Aaron Eckhart no filme "Love Happens" - depois de 109 minutos, "happens" um beijo, selinho!

Se a minha opinião for muito pedinte de justificativas técnicas, taí a do
Nassif.
E se você quiser arriscar, recomendo comprar no auditório. Assim você não se arrepende de ter gastando tanto por tão pouco...

12 de ago de 2011

Fly, people, fly!

Letras Perambulantes



Nos dias 12,19 e 26 de Agosto, na hora que o sino toca e o sol se põe a pino, você poderá ouvir Stephen King e Edgard Allan Poe no primeiro andar da Galeria do Rock.

O Instituto Cultural Galeria do Rock - na minha época era só galeria mesmo - em parceria com o Sesc Carmo, apresenta o projeto Letras Perambulantes, com leitura dramática de alguns textos de dois dos maiores escritores de ficcção e de horror fantástico. As apresentações serão acompanhadas por um músico e alguns calafrios na espinha

10 de ago de 2011

Morpheus



O poeta vem, sempre notívago, sempre em desgosto, visitar o porão oco, que é o corpo, e traz consigo suas parafernálias tecnológicas, tão adiantadas, que ininteligíveis para nós; e aperta os botões, antes na quarentena, ligando e estendendo as antenas que captam as almas de arriós.

Seu bisturi, de gume afiado, lacera, perfura, o porão errado. E o corpo, antes aliado, traduz cada gota do sangue derramado em letras e vírgulas e regionalismos. E a alma rugosa, tosca, pedra bruta, contorce, desdobra contos da luz da lua velados nos altos abismos.

Mas o corpo, sem o poeta, deita na pedra do sono. E esfacelado pela dor e vazio, de novo invoca o poeta com a mão no carbono.
  

8 de ago de 2011

Rock no Porão

Caros ratos e fantasmas que, oxalá, frequentam o porão,

É com grande alegria que anuncio a "parceria" do Porão com a rádio Rock Fly.
Entre aspas porque na verdade eles foram uns queridos em disponibilizarem a rádio aqui.

Eu sou suspeita pra falar da Rock Fly. Enjoada da repetição aliterada da Kiss e da falta de bagagem das rádios de portais, a Rock fly apareceu como uma mãe! E ela tá no topo da lista de favoritos.

Que vocês curtam, como eu!
(Valeu Mister Gardem!)

\m/

Vento


Esse vento que agora bate
e sacode as cortinas da sala,
e bagunça os cabelos assentados,
outrora trazia consigo cheiro de vida,
carregado de esperança;
neste vento eu era criança
com fresca lembrança corrida.

Este vento visionário
descortinou tantos eus
e costurou tempos imemoráveis na cabeça
que, avessa ao tempo, não pode
traduzir seus desígnios.

E agora o vento vem,
bate e passa,
não deixa rastro, nem deixa marca,
na cabeça cheia de vento.

P.S.: Se alguém souber o autor da imagem, por favor me avise! :)

5 de ago de 2011

Metanoia

Mais legal do que se identificar com pessoas inspiradoras é notar a semelhança entre vocês, independente do grau de expectativa, admiração e, porque não, fanatismo que você nutra por elas.

Lendo o 3º livro do 1berto Gessinger, deparei-me com a seguinte expressão: “Na adolescência, eu era muito mais velho do que sou hoje”. Daí os olhos se cerraram, as mãos se abriram e a música ressoando nos fones de ouvido fez todo o sentido.

(Eu sempre saquei esta frase do meu curtíssimo repertório, nas rodas de amigos ou na 3ª taça de Martini, ainda que o receptor da mensagem fosse o Epaminondas, meu cachorro)

Depois ele ‘conclui’ a ideia, para mim, quando diz que amadurecer é um pouco isso, ”deixar de ser esperto”.
Refutou-se a semelhança, com uma pitada de alívio imediato, ao concluir que o caminho da mudança é mesmo permanente. E que, graças a Deus, os meus dias de ócio criativo na adolescência me serviram para fazer a minha esperteza se esvair mais demoradamente.

O que é vivo muda | se muda muito morre | suba com cuidado os degraus da evolução”

4 de ago de 2011

Disciplina é liberdade

Eu acredito que só a disciplina outorga a verdadeira liberdade. Acredito na força do silêncio, da longanimidade e da ascese. Não acredito mais na paixão e me entristeço muito com a falta de esperança. Alguns de meus contemporâneos desistem fácil das coisas. Dão reset no jogo e "dão" reset na vida. Mas aqui, na real, não tem memory card...

Eu não sou nenhuma heroína. "Nobody's hero". Mas tento manter um equilíbrio entre meus ideais e minha postura. E quando se faz isso, você se sente um desajustado, um sistemático, um louco. O mundo te pressiona de tal forma que sua postura correta te traz tudo, menos aquilo que os filmes maquiaram; menos beleza e alegria.

Mas eu acredito. Sigo persistente, cega e confiante de que, mesmo que a longo prazo a vida não me retorne o que plantei, pelo menos no meu caminho há flores de caráter, raios de iluminação e um belo neon da lua para se observar com paz de espírito.

Em minha volta vejo muros por concretar, azulejos tortos e descombinantes, mas dentro de mim vejo belas árvores e rios de água viva. Chamem-me de louca, "mas louco é quem me diz".... 

3 de ago de 2011

Cina

Eu sempre fui uma viciada em sensações. Até hoje, ao ir a um show, por exemplo, pouco absorvo das poses das bandas, das dinâmicas dos artistas, da sequência das músicas. Por vezes me esqueci de quantas ou exatamente quais músicas foram tocadas. Mas me lembro bem do que senti ao ouví-las.

Recordo-me das formas das luzes do palco refletidas sobre aqueles milhares de cabeças; lembro-me de ter piscado demoradamente ao ouvir um acorde de efeito;
lembro-me até de qual cheiro associei a cada compasso, cada cadência...

Mas esse meu vício também me destinou gotas de suor de medo e risco; situações de odor fétido e cor ocre.

Já olhei nos olhos do assaltante e lhe disse com doçura que não daria meu walkman, só para sentir a apreensão dos segundos eternos que se passaram até ele dar-me as costas e desaparecer.
Já sentei na garupa do desconhecido só para sentir a textura do vento no rosto e o gosto da aventura.
Já beijei o rosto do pedinte, só para ver com meus olhos o poder do amor nos olhos alheios.

Mas não me recordo dos detalhes. Eu vivo tentando satisfazer o meu coração arrítmico, que esgota minhas energias buscando uma sensação improvável.

That Joke Isn't Funny Anymore

Las Margaritas

Sem a força das águas, sem a volúpia das correntes;
Sem a brevidade das paixões, sem a mácula do tempo...
 

Tuas palavras corriam pela boca como o mel que escorre das flores;
Mas os teus olhos ingênuos mostravam ver algo que não se pode mensurar, que não se pode entender, muito menos explicar.
As tuas mãos deslizavam pelo meu corpo como o toque à seda pura;
Mas os teus abraços revelavam um amor enclausurado pela diferença e insegurança.

Os teus beijos se enredaram por completo aos meus.
Como algo que se espera há tanto tempo que adormece o desejo;
Como alguém que submergiu em tristeza por medo de imprevistos.  

Você comprometeu lentamente todas as minhas resistências... 
As lembranças de você me levam além dos suspiros e noites mal dormidas; me enches os olhos e vejo tua alma.

"E se for amor, os quilômetros que nos separam não me impedirão de te reencontrar", disse.
"Mas tudo ficou tão claro, como um intervalo na escuridão", disse o rádio, transformando a dor em uma paralela que, por enquanto, não pretende cruzar o caminho...

Póstumo

Minhas lembranças de você são tão doces e afáveis
Como tarde que cai,
Como bolo de fubá da Vovó,
Como criança que brinca de pé no chão.
Assim fomos nós
Criados sem governo, sem pais, sem limites
Mas com respeito mútuo e uma sensação de unidade
Você não morreu, eu sei que não
Você não é pessoa
Você não é
Você é a rua, a avenida
A loucura e a alegria.
Toda essa crueldade vomitada
Na sua pele suave
Na sua pele alada
Tudo isso é mentira, eu sei
Você é alma
E se o seu sorriso foi capaz de me curar
Sei que há esperança
Mesmo que tudo isso seja verdade
O seu amor te libertou. Vai, vai com a luz, com os anjos, com o bem e com o perdão...
Vai em paz

Voodoo

I have the Shield of Solomon,
tattooing in the skin,
marked on the soul.

I descend of the Arabs;
I do not have dynasty,
Only a tenuous memory
of my native land.

My legacy is the probity
And my confraternity be with everyone who pratice the love and rejoicing in the justice.

"Toda intenção que não se manifesta por atos é uma intenção vã, e a palavra que a exprime é uma palavra ociosa." [A.L.C.]

Carpe Noctem



Uma atmosfera nula e branda dança em volta da vela e o lânguido silêncio queima o incenso dos solitários.
Um cravo estacado grita o "lá" grave da escala menor e faz calar a respiração assustada súbita pela luz cambaleante que se apagou... O calor de dentro não aquece minhas mãos.
Na escuridão as linhas não mais me guiam e minha vista se adapta vagarosamente à ausência de luz. Cada fio de meus cabelos salta como imaginações vivas e dançam como na cabeça de medusa a musa sinfonia dos ventos.
Fecho os olhos e posso ver cada um daqueles momentos perenes: as minhas pequenas mortes; o sangue na fronte escorre de guerras desconhecidas.
Abro os olhos e antes que o segundo acabe, minha pupila se dilata para conceber o que vê. Nas trevas densas, aqueles terríveis olhos puros me querem guiar...

Alvaro Tapia Hidalgo