3 de out de 2011

Someone's Music Echo

Deixou-na ao som de sua música favorita e partiu.



Prendendo a respiração, ela ouviu o som dos passos do salto quadrado da bota e do couro da jaqueta sibilando. Contou os 4 segundos que a porta da casa levava para abrir e ranger, fechando. Suspirou.
Via, da janela, meio de soslaio, à sombra da cortina, quando entrou no carro. Ainda presa a ela, sentiu o corpo vibrar quando ligou o carro, como se estivesse no carona.
E por força do hábito e do vislumbre, tirou os sapatos para esticar os pés sobre o painel. Olhou para baixo e vendo o piso que escolheram juntas noutrora, chorou. Chorou sem poder levantar a cabeça, pesada.
Sentiu no peito a dor se transformando lenta e intensamente em um riso incontrolável, insano! Conforme a música caminhava para o refrão, louca e despindo-se, teve a impressão de uma agulha tatuando em seu peito cada letra.
Achou-se patética pois sempre a criticava por aquela letra pouca, superficial. Mas agora tinha a melodia gravada, como se fosse dela.
Lembrou-se de Wilde, a quem tanto mencionou. Como uma profecia, percebia que não era mais dona de si; que "suas qualidades não eram verdadeiras". Refletiu sobre a imoralidade da influência, e chegou à conclusão de que aquela tatuagem lhe daria coragem de prosseguir.
Com o sabor da vaidade na boca e o suco espesso da vingança a escorrer, decidiu passar adiante este exercício empolgante: ser ela mesma e a outros corromper.

4 comentários:

  1. Muito foda!! Curti demais, você que escreveu? Se não, onde é que vc arruma esses textos?

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  2. Esses textos eu garimpo no porão da minha mente... depois de alguns anos acompanhada do Lítio e da literatura, algo fermentado sempre surge!

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  3. sua expressividade é forte Tabita! ler seu texto é ver imagens de cores suaves, luzes e escuros contrastantes... é gostoso voltar ao início do texto e olhar curiosamente pela janela, através da cortina, nos sentimos dentro da história. gostei muito!! ;)

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  4. Meiga, doce Yuna! A verdade é que as palavras são verdadeiras torres em porões. E quando as descobrimos, um mundo de possibilidades se descortina perantes nossos olhos.
    A vc peço que volte sempre. As luzes de outras torres, misturadas às nossas, sempre dão um tom novo!

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Éam?!?