30 de set de 2012

A ver do hades


Cada tentativa, cada procura, lhe é como a expansão de átomos.
A ausência, a anti-matéria, é sempre à maior potência,
e seu núcleo só se polariza pra decadência:
quando explode não sente coração, mas arritmia;
não sente pernas, mas atrofia;
só percebe o corpo quando aos membros dilacera, ávidos.


Aos olhos enleva quando chamas,
as chamas que brilham no teu céu;
uma abóbada celeste embriagada...

Extasiada, eu busco essa frequência a réu.

E ainda que eu ande pelo vale das gotas da sorte,
Não nutrirei esperança alguma,
porque plúmbea sombra me acompanha.
Tal sanha da sombras ressuma,
mas nua, que ando, não me podem impregnar:
a minha iniquidade transborda.


De certo que sangrarei à cada chaga que abres.
A ver do hades vislumbrei!
Eis que habitarei languidamente, todos os dias
até a condensação de meu amor. Ameyn. 





25 de set de 2012

23 de set de 2012

Da clandestinidade e das materializações

Não é de hoje que eu tenho minhas reservas com a coordenação vulgar que os dicionários, em geral, fazem com as palavras. Longe de mim querer exercitar aqui, também, a sintaxe, ou muito menos tentar uma aula magna, que no fundo reforçaria apenas minhas próprias convicções. Alguém já disse que não somos muito além de uma bricolagem de pequenos cacos; ora pontiagudo-arredondados, ora retilíneo-cortantes. Mais do que isso, creio que quando baixamos a guarda e a crista, e nos debruçamos sobre os diferentes contextos e históricos, o aparelho auditivo é capaz de nos conduzir a um plano interessante, que eu gosto de imaginar ser uma espécie de purgatório das ideias; de onde não se pode sair ileso.



Dando a devida importância que dou ao homo loquax, e adepta de Lacan, quando afirma ser a linguagem constituinte do inconsciente, receio haver significados estruturados e legitimados pelos dicionários que aglutinam sentidos opostos. Às vezes, pior: sentidos paralelos, sutilmente semelhantes (do latim antigo semol). Se, somado a isto, encontrarmo-nos decididos a rumar o céu ou o inferno, sem as dores e delícias dialéticas do purgatório, podemos tomar por certo um equivocado norte  (do hebraico semol).

Então, quando o homo loquax transforma-se em homo faber, do que é composta esta alquimia? De verdades feitas reais? De realidade com valores atribuídos? Quantas vezes suas verdades construíram o que você queria? "Tententender a minha ironia alegria, a sombra mostrou o que a luz escondia". 

11 de set de 2012

Todo mundo é uma ilha


Versão extraída do VHS Filmes de Guerra, Canções de Amor. "Gravado" no Theatro Ipanema, Rio de Janeiro, em 1993, com acompanhamento da Orquestra Sinfônica Brasileira e regência de um dos arranjadores mais talentosos que já ouvi, Wagner Tiso. 

O interessante deste álbum é que ele parece um armazém de secos e molhados: tem de tudo. Duas das 12 músicas foram gravadas no show feito em Nagoya, naquele mesmo ano. Só pra quem foi no show ou pra quem tem a fita original é possível degustar da canção que dá nome ao álbum, mas que não entrou no vinil.
Destaque para o blues arretado e metalizado de às vezes nunca, que, como toda frase, acaba com um riso de auto-ironia.

7 de set de 2012

Also sprach Zarathustra

Estava lá, já no final daquela vegetação rasteira, seca, pouca, monocromática.
Avistava, apertando os olhos contra os raios volumosos de um sol dourado, um pequeno quarto cuja varanda dava para o outro lado da última montanha da cordilheira.
Queria soltar as malas que carregava, vestir-se de lua e correr, correr, de olhos fechados para não saber o caminho, para não regressar.
Mas a realidade veio em forma de chuva. Riu, pensando se invés de nuvens acinzentadas,  máquinas de lavar flutuassem no céu. Olhou para cima e viu seus próprios pés. 
Se era uma quimera, não sabia, mas molhou-se. Abaixou-se, buscando algo para se proteger, e abrindo a bolsa uma criança o abraçou.
Seus instintos, quase todos, tentados a abandoná-lo; medo, angústia, dúvida. Mas seus olhos penetravam-lhe o corpo e moviam seus braços. Tomou-no e correu, tentando ainda realizar suas veleidades primeiras, mas nada mais havia em sua frente. Não sabia por onde guiar-se, só via uma escuridão fosca, lentamente, latentemente, iluminada por faróis. Soube o que vinha dali, e preferia o atropelamento a ser deixado.
Uno Moralez

  

3 de set de 2012

Shaking it out


"And I'm damned if I do
And I'm damned if I don't
So here's to drinks in the dark
At the end of my rope
And I'm ready to suffer
And I'm ready to hope
It's a shot in the dark aimed
right at my throat
'Cause looking for heaven,
found the devil in me"

1 de set de 2012

Anexim

Acolher o funesto outorga paz; e a paz de espírito é o desaferro do benevolente.