1 de dez de 2014

You Brought Me Up

Eu te entendo, meu amigo!
Até em seu último suspiro.
Mesmo sem concordar contigo,
E, perdoe, mesmo te culpando,

Pela urgência em selar seu destino,
Agora enxergo e vou seguindo.


Eu li suas palavras e me confunde,
não sei precisar quanto há de loucura, quanto há de pressa,
quanto há de tolices, quanto há de razão.
Talvez seja negação.


Eu tento exacerbar minha gratidão e retomar as poucas conversas divertidas que tivemos.
Sabe, amigo, eu não te via há muito tempo.
Sei que você não estava lá, confesso que me perdi de você.
E você não se perdeu, agora eu compreendo: você fugiu. 

E no entanto se preocupou com toda a cruz que carregava.
Sua divisão te rompeu.


Mas, amigo, fica tranquilo, agora. Já há muito para cuidar.
Você terá uma tarefa difícil pela frente; talvez mais do que esta.
Mas talvez a experiência te dê mais coragem, mais vitalidade.

E se a gente se encontrar por aí, espero poder, nem que seja como foi,
brevemente,
te dar uma palavra, um gesto, um olhar, que seja, de aprovação.


E quanto a nós, a gente se cuida. Contaremos as suas histórias e suas construções, incontáveis.
Você é um mestre, sempre será. 

Seus sobrinhos saberão quem você foi, ainda que você não tenha podido garantir isso entre seus netos. 
Mas, amigo, deixa comigo. Deixa com a vida. Ela cuida de tudo.
Eu sei, eu sei que você sabe disso.
Eu te entendo, amigo. 



14 de nov de 2014

Līberālitātis

O feriadão do nosso lance está na estrada -
Bato as mãos na janela e vejo a areia se desprender.
Na mala, as roupas de praia,
Mãos fechadas, braços cruzados a se defender.

Te tiro para dançar, um bolero bem justinho
Olhar no olho esquerdo, coração de azevinho.

Os brilhos do paetê te refletem e eu rio dessa tua pose,
Mas a noite de Perséfone me pesa sobre a fronte.

Então me visto Caetano e Gal,
eu não procuro mais o teu aval.
Apenas uso meu sorriso bronze.






13 de nov de 2014

A pampa dos meus dias

Relatos apontam “cultura machista” dentro da instituição e a pressão para que vítimas não denunciem os casos de violações 

A culpa é da vítima
Corrêa, que era titular da 1ª Vara da Comarca de Búzios, estava sem a CNH (Carteira Nacional de Habilitação), conduzia um carro sem placa e estava sem os documentos do veículo quando foi parado. Ele acusou uma das agentes da operação de desacato ao ser informado que o carro seria removido para o depósito. 


"Herdei um campo onde o patrão é rei 
Tendo poderes sobre o pão e as águas
Onde esquecido vive o peão sem leis
De pés descalços cabresteando mágoas 
(...)
Onde a ganância anda de rédeas soltas 
(...)
Eu não quero deixar pro meu filho
A pampa pobre que herdei de meu pai" 

8 de out de 2014

Alguns versos de sofreguidão

Como aprendiz do teu amor e carente da tua presença, 
me sinto abrigada por tuas palavras; 
e como objeto de sua devoção, sinto constrangimento e esperança
de que você me encontre em você dissolvida, diluída de mim,
sem as impurezas que te infeccionam.


7 de out de 2014

Music of the day

"versos meus
me são tão caros
que por costume
prefiro calá-los
à superfície
a poesia
desprovida de harmonia
deita palavras estranhas
na pena simulada
computador
as falsas luzes ardem
elétricas
iluminando
idéias vãs
enebriando
as mentes
dos novos poetas
que faltam à paisagem
que jejuam da benção solar
e a natureza
órfã de contemplação
agoniza
e agita
com seus ventos
e tremores
[ignis natura renovatur integram]
arma-te de teus versos e vem
que a alma ardente
da poesia
renova e reluz
arredia
rebelde
ao gosto mundano
de sabores azedos
profanos
inférteis
por natureza
castrados na raiz
essência"
Fúria Marina, Grupo Voz

20 de jun de 2014

She run among the train

Um barbante preso em laço, parafusos n'areia, teu corpo inteiro no meu abraço.
Cortante como a morte, inconcluso como o amor, incerto como a sorte.
Amalgamada, estavas naquele frame quase imperceptível entre a paisagem e a correnteza;
Na beleza da obstinada procura pela definição aporismada.



10 de abr de 2014

Mosaico

Começo na metade da nossa história. Nesse presente, eu te conduzi até o sol ardido de uma tarde gelada. Sua tosse me causava uma estranha e exagerada preocupação. A cada gole de ar desesperado, eu sentia como se meus nervos fossem cordas dedilhadas vigorosamente por um violonista. Eu lhe dava meu sorriso, mas meus olhos não podiam evitar a expectativa apreensiva de seu próximo gesto. E como sempre, surpreendentemente previsível, seu sorriso inteiro me desarma.


Vejo as pupilas dos teus olhos de amêndoas se dilatarem ao mirarem meu rosto. Como num caleidoscópio, reconheço as cores da aurora boreal refletidas nos finos fios dos teus cabelos negros. Eu te toco com o respeito de quem tutela algo que não lhe pertence, mas te sinto, não minto, sem arrepios: sua pele é uma extensão  'metaformoseada' da minha.
Esse não poema é como os planos que faço para o seu futuro: cheio de cuidadosa atenção e afeto, mas simples de coração.


Do alto da minha autoridade sobre você, eu preparo em meu caldeirão folhas de hera e infusões de Dill e Junípero, para um sorriso pueril e uma conduta de liberdade. Eu não sei o que teremos adiante, mas sei o que não quero; e pretensamente sei que um poeta precisa de amarguras para escrever, mas até elas eu quero passar com você. Um amigo já avisou: "elas passarão", ' nós passarinho'.




4 de fev de 2014

Video of the day

Quando ouço a palavra raridade (e no ciberespaço ouvir e ler estão semanticamente conectados), um dos significados que me despontam da mente é o casamento entre formato e conteúdo. Na música, isso tem a ver com harmonia cheia - ou 'não vazia', melodia rica e letra cativante. E eu fui arrebatada por essa união poderosa em 3 minutos de vídeo. 

É esse tipo de experiência que os amantes da música buscam; essa sensação a que somos submetidos, entorpecidos, por algo tão leve e portentoso como o som. O som é tão poderoso, que me recordo de estar entre amigos surdos que se emocionaram ao ouvir assistir a uma orquestra, porque sentiram o som. E excetuando a emoção transportada naturalmente de mãe para filho, tive a impressão de que a Sophia, minha filha com dias de vida, tenha se impressionado também com os primeiros acordes de Androginismo, dos Almôndegas, primeira banda dos talentosos irmãos gaúchos Kleiton e Kledir.

E é por causa daqueles olhões arregalados, que largaram a mamada para olhar a TV, que reapareço no Porão, digitando com o indicador essas poucas palavras.