22 de ago de 2011

Interferência no Porão

                                              
                                                                                         Jack Vettriano


À meia luz, o cigarro se apaga no ritmo da vela. E na janela, o vento bate e grita fino. Um violino toca longe uma canção que aos poucos cala a voz da guitarra. Bethânia fala...


"Eu vou te contar que você não me conhece,
e eu tenho que gritar isso porque você está surdo e não me ouve.
A sedução me escraviza a você.
Ao fim de tudo você permanece comigo mas preso ao que eu criei,
e não a mim.

E quanto mais falo sobre a verdade inteira, um abismo maior nos separa.
Você não tem um nome, eu tenho.
Você é um rosto na multidão e eu sou o centro das atenções.

Mas a mentira da aparencia do que eu sou,
e a mentira da aparencia do que você é.
Porque eu,
eu não sou o meu nome,
e você não é ninguém.

O jogo perigoso que eu pratico aqui,
ele busca chegar ao limite possível de aproximação,
através da aceitação da distância e do reconhecimento dela.

Entre eu e você existe a noticia que nos separa.
Eu quero que você me veja nu;
eu me dispo da noticia.
E a minha nudez parada
te denuncia e te espelha.
Eu me delato,
tu me relatas;
eu nos acuso e confesso por nós.
Assim me livro das palavras com as quais
você me veste".

(Fauzi Arap)

Esse poema de Arap me trouxe à memória os aforismos de Jung, e sua teoria sobre como o ato de amar é uma experiência de morte. E morte inexorável: ou mata a personalidade daquele cujo sentimento não deixou assumir sua verdadeira natureza e personalidade, ou mata o exercício de amar, do relacionamento amoroso, pois que o orgulho de um ego inflamado não permitiu descobrir-se no outro nem influenciar-se.

"Onde o amor governa, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, falta amor. Um é a sombra do outro." - em Psicologia do Inconsciente.

2 comentários:

  1. Oi Tabita.
    Creio que foi bom vir aqui hoje. Ler me faz muito bem nessas épocas, mesmo sabendo que mais cedo ou mais tarde, isso passa. Ando com o ego inflado (como todo bom leonino) me sentindo no DEVER de "matar a personalidade daquele cujo sentimento não posso deixar assumir". Me afastei do FB tbm, para apreciar mais toda essa introspecção. Desculpe o pequeno desabafo... Como disse, isso passa. D. Brand

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  2. D. Brand,
    De fato, foi muito bom você ter vindo. E como sempre me sentei à sua mesa, repartindo a ilex paraguariensis e ouvindo suas considerações sobre o mundo, o amor e a vida, sinto-me grata em poder, ainda que pouco, retribuir. Caniços pensantes, como nós, se alimentam de palavras. São elas as grandes responsáveis por nos mudar e moldar, além do que podemos prever. Tenha fé na força do silêncio. E seja sempre bem-vindo!

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Éam?!?