7 de abr de 2012

O início, o fim e o meio

Indigesto, o filme sobre Raul, para quem o achava apenas um grande cantor, um símbolo da música popular brasileira. Para os fãs, surpreendente. Mesmo aqueles que o seguem há anos, que vão às passeatas em sua memória, em São Paulo; que vão na bagunça do cemitério Jardim da Saudade, no aniversário de sua morte, em Salvador. Nas duas horas e quinze de filme, a plateia riu – muito! -, suspirou e, ao final, terminou ainda mais confusa sobre a figura de Raul Seixas.

 Eu o considerava um contra-artista por falta de termos que o personificassem melhor, mas acredito que dentro das limitações que qualquer forma de expressão tenha, esta definição seja a mais próxima dele mesmo, ou de suas ações. Afinal, conhece-se uma árvore pelos seus frutos.
Prometendo não fazer nenhum spoiler, ou talvez uns poucos, diria que Walter Carvalho foi extremamente sensível, mas sem baitolagem. Ele penetrou fundo nas relações de Raul e esta foi sua linha editorial. Nem precisou de opinião, de tendência: pesquisar sobre o cara deu um rumo certeiro na produção. E este é um argumento ao qual quero me ater para dar rumo a estas humildes observações.

Quem viu o documentário, ou quem já ouviu as declarações de Paulo Coelho, sabe que Raul era um underground. Ele vivia cercado de gente, influenciado, mas era senhor de si. “O maior companheiro do Raul se chamava Raul Seixas”, afirmou Paulo no documentário, enquanto uma mosca pousava em seu braço. "Eu nunca vi mosca em Genebra!", constatou abismado. Por isso acho que ele era um desses sujeitos cujo destino é traçado nos primeiros anos de vida. Com 12 anos, ele tocava em um rock clube, fumava, enfrentava sutilmente a família e bebia. Bebia muito. Seu comportamento “destrutivo” era o grande motor de suas produções. Então, era escolher entre ser um velho arrependido de seus pecados, gagá, provavelmente um religioso desses teóricos, interrompendo o fluxo vertiginoso de sua criatividade, vivendo uma vida medíocre ao lado de Lena – mulher de muito boas intenções, mas uma chata – ou ser o Raul. Aqui entra o Marceleza.

Como admiradora do R´n´r e boa “fia de baiana”, não posso deixar de vibrar com as crias soteropolitanas. Claro que Raul foi o grande precursor do movimento no Nordeste, mas ele foi pro mundo. Quem permaneceu, anos depois, fazendo a manutenção, próxima do público, jorrando riffs de guitarra e ideias subversivas foi uma banda chamada Camisa de Vênus. E quando Marcelo Nova lança sua carreira solo com a Envergadura Moral, Raul está em um momento down da carreira. Ele tava na merda, mesmo.

E quem poderá desconfiar das intenções de um fã, de alguém que é capaz de afirmar que deve sua carreira a Raul? Lena. Ela e alguma parcela do público do Raul que não entendeu nada sobre a perenidade da vida; que vive presa às amarras da encarnação. Não fosse Marcelo, outro apareceria para levar Raul de volta aos palcos – a única coisa que ele amava mais do que tudo, mais do que as filhas, mais do que as companheiras, mais do que a própria vida. Marcelo deu um sopro renovador na vida de Raul, que em meio àquela loucura toda de internações seguidas, doenças, alcoolismo e separações, conseguiu ordenar as ideias de Raul para mais produções talentosas que nasceram desta parceria: Carpinteiro do Universo, Banquete de Lixo, Pastor João e a igreja invisível.
E quer mais certeza de uma vida vivida com integridade e em paz de espírito do que a forma da morte? Não é regra, mas privilégio um cara sedento como era, que buscou se conectar com a energia criadora de tudo que foi maneira: sacrificando animais, cantando, compondo, transando, gerando filhos, drogando-se, estudando (Direito, Psicologia, Filosofia, Ocultismo), morrer dormindo.
Saí tristonha, pelas cenas chocantes do fim no fim do documentário. Mas agradecida por poder desfrutar de sua genialidade.

3 comentários:

  1. UAU Tabita! Sensacional suas colocações dotadas de muita sensibilidade e sensatez. Merece ser amplamente divulgado!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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Éam?!?