5 de abr de 2012

Inner Truth

Quase me convenço de que a máxima gnóstica "anima semper scit" não é apenas uma fachada, dessas robustas e impenetráveis, comuns ao universo oculto. Com o tempo, e em determinado estágio, a busca pelo conhecimento em resposta às indagações mais intrínsecas da alma te fazem girar, correr, escorregar por degraus e cair no mesmo lugar. Mas é bem aqui, diante dos mesmos corredores, que a luz pode iluminar o canto mais inóspito do entendimento. Ou não.

Entre os mais versados psicanalistas, a inclinação à mitomania pode explicar e, por si só, dissolver a capacidade humana de atribuir poder, verdade, justiça, e tantos outros valores, a entidades espirituais. No entanto, mesmo o fundador da Psicologia analítica, o suíço Carl Gustav Jung, estabeleceu uma relação entre o estudo dos elementos constitutivos da mente e as personificações. Aliás, mais do que isso: Jung mostrou-se, publicamente, interessado na maneira como os místicos compreendiam o mundo. Em 1916, ele publicou  o livreto "Sete Sermões aos Mortos" - oriundo de uma experiência com espíritos que teriam intervido no mundo físico através de objetos. Assustando-se, Jung teria ouvido vozes dizendo-lhe "voltamos de Jerusalém, onde não encontramos o que buscávamos". Eventos estranhos a parte, o interessante é observar como o tom da narrativa muda neste texto, verossímil, impositivo. Não fosse atribuído e reconhecido por ele, jamais acreditaria ser de sua autoria.
Eis porque vos falo do mundo criado como uma porção do Pleroma, mas unicamente em sentido alegórico; pois o Pleroma não se divide em partes, por ser o nada. Somos também o Pleroma como um todo; visto que num aspecto figurativo o Pleroma é um ponto excessivamente pequeno, hipotético, quase inexistente em nós, sendo igualmente o firmamento ilimitado do cosmo à nossa volta. Por que então discorremos sobre o Pleroma, se ele é o todo e também o nada?

Outro evento histórico que evidenciou sua predileção pelo gnosticismo foi a aquisição do Codex Jung por seu Instituto. Embora criado numa tradição ortodoxa (seu pai era pastor luterano), Jung colaborou na tradução de parte do Nag Hammadi e considerou o gnosticismo uma importante ferramenta da "obtenção da plenitude da alma" (Stephan Hoeller). 

A versatilidade de Jung parece ser a grande responsável pela riqueza de sua obra. Além de notável estudioso, era artista plástico, desenhista, miniaturista e médium - para alguns, leia-se esquizofrênico, já que afirmou ouvir vozes e dialogar com elas, capacidade que sua mãe também possuía. Estes talentos foram conhecidos do público recentemente com a divulgação do Liber Novus ou Livro Vermelho, que foi escrito a mão detalhando suas viagens pelo inconsciente e descrevendo, também por desenhos, diversas imagens arquetípicas. Somo a essa versatilidade a própria dualidade que ele viveu, hesitando entre personalidades e entre sua emancipação e a subserviência ao tutor e mestre, Freud.

Trecho de "Jornada da Alma" - dualidade razão X emoção e a relação-conflito com Freud


Sua consternação aumentava à medida que suas ideias tornavam-se mais numerosas e autônomas, e nenhum de seus tratados pareceu diminuir sua angústia. E conforme se entregava aos devaneios de seus sonhos, menor era sua vontade de viver esta vida, tão vulgar e efêmera, como relata em sua autobiografia:

"Todas essas visões eram magníficas. Eu estava mergulhado, noite após noite, na mais pura beatitude, “no meio das imagens de toda a criação”. Pouco a pouco, os motivos se misturavam e empalideciam. Comumente as visões duravam aproximadamente uma hora, depois tornava a dormir e logo de manhã sentia: “De novo uma manhã cinzenta! Volta o mundo sem cor com seu sistema de alvéolos. Que estupidez! Que terrível loucura!”
No retorno de um de seus sonhos e já na velhice, em meio a doenças, Jung vai-se despojar parcialmente de suas teorias e demonstra encontrar na aceitação do destino e na intuição o inefável caminho do autoconhecimento.
"Também compreendi que devemos aceitar os pensamentos que se formam espontaneamente em nós como uma parte de nossa própria realidade e isso fora de qualquer juízo de valor. As categorias do verdadeiro e do falso certamente sempre existem, mas porque não são constrangedoras, ficam à margem. Porque a existência das idéias é mais importante do que seu julgamento subjetivo"

Um comentário:

  1. muito legal, acho que vou estudar esse cara ai no meu curso, só não sei quando e porque, ainda...

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Éam?!?