17 de fev de 2012

Amoreba Textual

para além da suruba, um amor em comunidade - por Yuna Ribeiro
Pra mim é muito difícil escrever sob encomenda, é um desafio, um deleite, mas é também um sofrimento, tá certo que é um sofrimento daqueles... gostoso, sabe!? E sobre um tema inusitado, porque vindo de uma pessoa singular e especial como tal, não poderia ser diferente.
Bom, o amor para além de duas pessoas, de um casal, um amor entre quatro, cinco, por um número indefinido de pessoas, porque a quantidade não importa nesse caso. Pessoas que convivem amorosamente, com relações sexuais ou não, com níveis de convivência variados, mas todos com algumas coisas em comum, a capacidade de criar vínculos e o desprendimento. Talvez, uma necessidade de carinho, de fazer parte, de estar conectado, que não basta uma metade, é preciso mais, uma relação complexa, entre várias pessoas, que pode ser tão mais complexa? Ou tão mais simples?
Na verdade tudo isso é um grande mistério pra mim e, confesso, me causa uma curiosidade intrigante. De certa maneira, consigo entender e até me interessar por alguns aspectos.
Imagina não precisar ter medo de ficar sozinho, ou ter companhia para as atividades mais diversas, se sentir amado, olhado, compreendido nas diferentes facetas e momentos. Será que estamos preparados para nos doar nessa proporção, deixar a vaidade de não ser único e de não possuir coisa alguma, principalmente o controle da situação. Tá, controle é pura ilusão, até quando se trata de nossas próprias ações e sentimentos. Mas, imagina ter a ousadia de se deixar levar, se misturar, dividir, acreditar, amar várias pessoas ao mesmo tempo, cada uma em suas singularidades, formas e emoções.
Acho que não estamos preparados, culturalmente as condições para esse tipo de relação ainda não foram construídas. Provavelmente, dentro das relações de poder entre indivíduos e instituições, nem existe o interesse em criar essas condições, vivemos numa era de individualismos déspotas e isso é lucrativo demais para o lado que está ganhando dentro desse jogo de poder.
Vivemos um tempo apressado, sentimos medo demais, estabelecemos relações na base da competição e da propriedade, precisamos dominar e ser melhor que o outro para assegurar nossas inseguranças. Ciúme, falta de chão, necessidade de agradar a todos, necessidade de corresponder a expectativas desmedidas, necessidade horrorosa de nos colocar como um produto vendável e competitivo no mercado alucinado das relações amorosas. Sim, é esse o cenário preponderante e construído pelo sistema em que vivemos. E quer saber, até as relações a dois andam desacreditadas.
Estamos nos acostumando a não ter o apoio emocional e o aparato sólido de uma vida em comunidade, fazendo parte de um coletivo, temos cada vez mais que nos virar sozinhos e, qualquer fracasso ou dificuldade é nossa completa e exclusiva responsabilidade. Não somos mais responsáveis  uns pelos outros, assim como o Estado é cada vez menos responsável pelas condições de sobrevivência de seu povo. E assim, nesse empurra empurra de responsabilidades, seguindo uma lógica absurda, seguimos sozinhos, independentes e amargurados.
Em contrapartida, a capacidade e liberdade para fruir a vida, não sofrer metodicamente com o imponderável e aceitar que de fato controlamos nada, acaba sendo uma necessidade urgente dos que ainda têm um amor enorme dentro de si, dos que estão dispostos a criar vínculos amorosos e fraternais sinceros. Nesse caso, moralismos e logísticas a parte, não importa se isso acontece entre um casal ou entre mais pessoas.
Acredito que qualquer tentativa em criar condições reais, físicas e psicológicas para que os laços possam acontecer é válida, sem cobranças, sem pressa, simplesmente porque as pessoas estão juntas, dispostas para conhecer profundamente o outro, não importando qual é o número dessa relação. Pessoas que resolveram se dedicar umas as outras, dedicar tempo, amor, cuidado, com espaços comuns, com suas diferenças e semelhanças, se despojando de limitações políticas e morais. Fugindo do vazio, do raso, tendo coragem para o vínculo construído com calma e ao longo do tempo, numa concepção de amor livre de armadilhas e amarras moralistas, que no final das contas não passam de mesquinharias do poder econômico. Por que não?
Revista Trip


3 comentários:

  1. "Vivemos um tempo apressado, sentimos medo demais, estabelecemos relações na base da competição e da propriedade, precisamos dominar e ser melhor que o outro para assegurar nossas inseguranças."

    Me fez lembrar o texto do Rubem Alves. Em tempos de relações competitivas, jogar esse frescobol é muito mais edificante do que qualquer amor travestido a dois.

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    1. http://poenasdo.blogspot.com.br/2012/09/ter-ser-e-viver.html

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  2. Você precisa escrever/postar mais. Todos à quem mostrei esse texto, de uma forma ou outra, se encontraram nele.

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Éam?!?