17 de ago de 2015

σοφία ‎

Recosto você em meus braços e o sono rapidamente me transporta do teu lado. Não tenho tempo de experimentar a sensação de culpa, quando encaro com surpresa meu antigo quarto. Vejo sua pele se amalgamar à minha. Caminho segura naqueles conhecidos passos, mas experimentando um estranho ineditismo. Na verdade, reconheço com clareza aguda sua velha presença: no pôster atrás da porta, na vista do Banespa pela janela, no som metálico dos trilhos do trem. 
Você era o batom vermelho do sábado e as polainas de lã do domingo. Na apreensão do carona da moto, na mala feita. Você era o cinema da quarta-feira. Estava lá, no portão fechando, no borrão das árvores na estrada. Você era a lágrima de saudades da minha vó. A parede de tijolo, o cômodo vazio e o fio de luz do sol que insistia em assistir nosso sono. Você era o amor feito de madrugada e cada laranja cortada pro Heitor. 
Aos poucos você se tornou o conjunto de estrias na minha barriga, a dor nos seios e uma alegria imediata quando se mexia. Você foi aquele medo de perder o que eu sequer tinha, e as inúmeras leituras no metrô enquanto eu encenava que tudo corria bem. Você é aquele grito que irrompe de madrugada e a cada dia que passa você se descola de mim pra ser esse amanhã desconhecido. 
Eu só sei que você tem esse sorriso que dissipa o meu cansaço. Não tem nada que eu te diria, a não ser que eu adoro seu nome. 

Um comentário:

Éam?!?